Atenção!

1 de Dezembro, 2016

 

Todas as angustias e dificuldades humanas derivam da sua inabilidade de se sentar numa sala consigo mesmo.”, Blaise Pascal

 

Desde o início da humanidade até 2003 foram produzidos cerca de 5 Exabytes de informação (pinturas, manuscritos, livros, filmes, musica, etc). 1 Exabyte é um número gigantesco composto por um 1 seguido de 18 zeros à frente (1 000 000 000 000 000 000, ou 10^18). A revolução digital trouxe um aumento exponencial da informação produzida. Agora, os mesmos 5 Exabytes são produzidos a cada dois dias. Em 2013 existia um total de 4.4 Zettabytes de informação (10^21 bytes). Calcula-se que em 2020 a informação chegará aos 44 Zettabytes. Para termos uma noção, isto equivale de forma grosseira a tantos bytes de informação, como o número estimado de estrelas em todo o Universo. Acreditem, é mesmo muito.

 

Estes números servem para relembrar, que o mundo em que vivemos é significativamente diferente do que era há apenas 80 anos atrás, antes de surgir o televisor, ou há 30 anos, antes de surgir a internet. A quantidade de informação, de estímulos e distracções que entram em contacto com a nossa mente nos dias de hoje, cresceu imensamente. Em termos fisiológicos temos hoje o mesmo cérebro do caçador-recolector de há 50.000 anos atrás. A diferença é que hoje em dia, se morarmos num meio urbano e utilizarmos a internet, telemóvel, televisão, etc, é provável que recebamos mais informação numa semana do que o homem de há 50.000 anos atrás em toda a sua vida. É difícil de prever que impactos isto terá. Conseguirá a biologia acompanhar este ritmo de demandas sensoriais e evoluir de forma sustentada? Que tipo de cérebro ou sistema nervoso resultará desta necessidade de processar tanto estímulo? E entretanto, qual o impacto na nossa saúde e qualidade de vida?

 

Os dados parecem mostrar que não estamos preparados para lidar com esta inundação de informação. Segundo a Organização Mundial de Saúde: “… o número de pessoas que sofre de depressão e/ou ansiedade aumentou quase 50% entre 1990 e 2013, de 416 milhões para 615 milhões em todo o mundo…”. Uma em cada dez pessoas sofre de perturbações mentais a nível Mundial, sendo que em Portugal o problema é ainda mais grave, afectando um em cada cinco portugueses.

 

A informação digital trouxe consigo algo inédito: a mente sequiosa pelo próximo pedaço de informação, a próxima imagem, o próximo tab, o próximo click. A nossa mente está a passar de focada, paciente e enérgica, para uma mente fragmentada, ansiosa e exausta.

Tem vindo a ser passado o mito de que é vantajoso cultivar a capacidade de multiprocessamento, ou seja, realizar várias tarefas em simultâneo, o que está longe da verdade. De facto, o nosso cérebro só consegue dedicar a sua atenção a uma tarefa num dado instante, e, a necessidade de alternar entre temas e acções diferentes tem um custo elevado em termos de eficácia e desgaste. O multitasking pode funcionar bem nas máquinas, mas não nos seres humanos.

 

A leitura de jornais e obras literárias tem sido substituída pelos cabeçalhos de notícias, vídeos, fotos, posts, tweets, sms e a observação da natureza substituída pelos ecrãs. No processo têm-se perdido várias capacidades: A capacidade de reflectir sobre a informação que estamos a aceder com espirito crítico; A capacidade de ponderar várias possibilidades e pontos de vista; A capacidade de transformar informação em conhecimento e o conhecimento em sabedoria; A capacidade de entrarmos no mundo subjectivo e afectivo do outro e cultivarmos a empatia; A capacidade de imaginar e sonhar; A capacidade de serenar a nossa mente.

 

Segundo o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, cada época da humanidade foi marcada por uma determinada patologia. Houve uma longa época bacteriana que durou até à descoberta da penicilina, depois houve uma época viral que foi mais ou menos ultrapassada por técnicas imunológicas. A patologia do nosso século é sobretudo neuronal. A depressão, o burnout, a ansiedade, o stress, a hiperactividade e o défice de atenção são agora os nossos carrascos silenciosos. Segundo este filósofo, o Ocidente está a tornar-se numa Sociedade do Cansaço.

 

Nos dias de hoje será seguro dizer que, a competência, o recurso, ou o tesouro mais valioso para o bem-estar e sanidade de um ser humano é a qualidade da sua atenção. A qualidade da atenção é o que separa uma vida de autómato de uma vida feita consciente. A capacidade de estar ligado à experiência vivida neste corpo, no momento presente, é o que dá cor e textura à vida, é o que dá magia a cada instante. Esta atenção plena e inteira é o que traz saciedade perante a experiência tal como está, extraindo da simplicidade a quintessência de estar vivo. A verdadeira liberdade não advém da possibilidade de escolhermos de entre um sem fim de experiências, ou de termos experiências imensamente requintadas e cheias de adereços, mas antes do podermos abrir mão de todos os quereres e de estar plenamente em paz com o momento tal como está, sem haver nada a acrescentar.

 

Nas tradições contemplativas, a prática de depurar a concentração no instante presente, seja com um foco mais estreito (meditação com objecto) ou com abrangência alargada (meditação sem objecto) é central no aquietar da mente e no cultivar da sabedoria e compaixão. É essencial para uma mente em paz escolher com sabedoria onde colocar a atenção. Nunca é demais relembrar o ditado que diz que onde está a atenção, é por onde a energia segue (“where attention goes, energy flows”).

A qualidade de atenção e a possibilidade de escolhermos onde a colocamos, é um tesouro do espírito e define-nos como seres humanos. Não será o resto um conjunto de condicionamentos, hábitos e estratégias causais a que chamamos “Eu”?

Esta qualidade de atenção existe em todos os seres humanos e é independente de credos ou teísmos. No mundo da hiper-informação, da hiper-produtividade e do hiper-consumismo em que vivemos, treinar a qualidade de atenção e escolher criteriosamente onde investir esta atenção, é um acto essencial de nutrição e de sanidade mental. É condição necessária ao autoconhecimento e autorrealização.

Só porque temos um palato capaz de sentir prazer com diferentes comidas, não vamos comer tudo o que os nossos olhos vêem. É consensual que chegaríamos a um ponto de obesidade e a graves problemas de saúde. No caso da mente, os resultados prejudiciais de dedicarmos atenção sem critério a todos os conteúdos e entorpecermo-nos com milhares de estímulos, não são tão óbvios. Mas as consequências não deixam de ser trágicas.

 

O que podemos fazer então?

Há muitas coisas que podemos fazer para contrapor este mundo de híper-informação e conseguir momentos de integração. As práticas de meditação, yoga, tai-chi, chi-kung, ou quaisquer outras técnicas de consciência corporal, são a melhor forma de conseguirmos unificar a mente, ancorar no momento presente, e sentirmo-nos mais enraizados no corpo. A tónica está em sair do modo fazer e passar gradualmente para o modo ser. Somos Seres-Humanos e não Afazeres-Humanos.

Podemos parar ao longo do dia várias vezes durante um minuto e respirar de forma consciente notando as sensações da inspiração e expiração no corpo. Podemos notar as sensações das pernas ou da sola dos pés enquanto caminhamos de um lado para o outro. Podemos tentar ter a disciplina de fazer uma só tarefa de cada vez: não enviar sms enquanto falamos com alguém, não falar ao telemóvel enquanto conduzimos, não ter vários separadores abertos no computador para ir saltitando de assunto em assunto. Podemos procurar ter contacto com a Natureza, dar um passeio no bosque ou na praia estando dedicado inteiramente aos sentidos.

 

Citando o teólogo e psicanalista – Rubem Alves: “Compreendi que a vida não é uma sonata que, para realizar sua beleza, tem que ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efémero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e de amor justifica a vida inteira.

 

Não importa quão longa é a nossa sonata ou quantos instrumentos estão a tocar, se não a escutarmos com atenção dedicada, podemos terminar esta existência num estalar de dedos, com um sabor amargo na boca e um vazio no peito. Por sua vez, um instante de vida acolhido por inteiro é uma experiência do domínio do sagrado.

Como nota final deixo o desafio ao leitor de fechar os olhos e respirar dedicando toda a sua atenção a este acto, como se fosse a primeira e a ultima vez. Pode ser que o leitor descubra neste movimento: o som das marés; o embalo de todas as ondas que já foram e serão; o estremecer de todas as estrelas; o sopro divino; ou até o pulsar da vida que nos relembra que vale a pena estar vivo.

 

Filipe Raposo

Escrito em Dezembro de 2016

Foto de Le Minh Phuong em Unsplash

 

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Desde o início da humanidade até 2003 foram produzidos cerca de 5 Exabytes de informação (pinturas, manuscritos, livros, filmes, musica, etc). 1 Exabyte é um número gigantesco composto por um 1 seguido de 18 zeros à frente (1 000 000 000 000 000 000, ou 10^18). A revolução digital trouxe um aumento exponencial da informação produzida. Agora, os mesmos 5 Exabytes são produzidos a cada dois dias. Em 2013 existia um total de 4.4 Zettabytes de informação (10^21 bytes). Calcula-se que em 2020 a informação chegará aos 44 Zettabytes. Para termos uma noção, isto equivale de forma grosseira a tantos bytes de informação, como o número estimado de estrelas em todo o Universo. Acreditem, é mesmo muito.

 

Estes números servem para relembrar, que o mundo em que vivemos é significativamente diferente do que era há apenas 80 anos atrás, antes de surgir o televisor, ou há 30 anos, antes de surgir a internet. A quantidade de informação, de estímulos e distracções que entram em contacto com a nossa mente nos dias de hoje, cresceu imensamente. Em termos fisiológicos temos hoje o mesmo cérebro do caçador-recolector de há 50.000 anos atrás. A diferença é que hoje em dia, se morarmos num meio urbano e utilizarmos a internet, telemóvel, televisão, etc, é provável que recebamos mais informação numa semana do que o homem de há 50.000 anos atrás em toda a sua vida. É difícil de prever que impactos isto terá. Conseguirá a biologia acompanhar este ritmo de demandas sensoriais e evoluir de forma sustentada? Que tipo de cérebro ou sistema nervoso resultará desta necessidade de processar tanto estímulo? E entretanto, qual o impacto na nossa saúde e qualidade de vida?

 

Os dados parecem mostrar que não estamos preparados para lidar com esta inundação de informação. Segundo a Organização Mundial de Saúde: “… o número de pessoas que sofre de depressão e/ou ansiedade aumentou quase 50% entre 1990 e 2013, de 416 milhões para 615 milhões em todo o mundo…”. Uma em cada dez pessoas sofre de perturbações mentais a nível Mundial, sendo que em Portugal o problema é ainda mais grave, afectando um em cada cinco portugueses.

 

A informação digital trouxe consigo algo inédito: a mente sequiosa pelo próximo pedaço de informação, a próxima imagem, o próximo tab, o próximo click. A nossa mente está a passar de focada, paciente e enérgica, para uma mente fragmentada, ansiosa e exausta.

Tem vindo a ser passado o mito de que é vantajoso cultivar a capacidade de multiprocessamento, ou seja, realizar várias tarefas em simultâneo, o que está longe da verdade. De facto, o nosso cérebro só consegue dedicar a sua atenção a uma tarefa num dado instante, e, a necessidade de alternar entre temas e acções diferentes tem um custo elevado em termos de eficácia e desgaste. O multitasking pode funcionar bem nas máquinas, mas não nos seres humanos.

 

A leitura de jornais e obras literárias tem sido substituída pelos cabeçalhos de notícias, vídeos, fotos, posts, tweets, sms e a observação da natureza substituída pelos ecrãs. No processo têm-se perdido várias capacidades: A capacidade de reflectir sobre a informação que estamos a aceder com espirito crítico; A capacidade de ponderar várias possibilidades e pontos de vista; A capacidade de transformar informação em conhecimento e o conhecimento em sabedoria; A capacidade de entrarmos no mundo subjectivo e afectivo do outro e cultivarmos a empatia; A capacidade de imaginar e sonhar; A capacidade de serenar a nossa mente.

 

Segundo o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, cada época da humanidade foi marcada por uma determinada patologia. Houve uma longa época bacteriana que durou até à descoberta da penicilina, depois houve uma época viral que foi mais ou menos ultrapassada por técnicas imunológicas. A patologia do nosso século é sobretudo neuronal. A depressão, o burnout, a ansiedade, o stress, a hiperactividade e o défice de atenção são agora os nossos carrascos silenciosos. Segundo este filósofo, o Ocidente está a tornar-se numa Sociedade do Cansaço.

 

Nos dias de hoje será seguro dizer que, a competência, o recurso, ou o tesouro mais valioso para o bem-estar e sanidade de um ser humano é a qualidade da sua atenção. A qualidade da atenção é o que separa uma vida de autómato de uma vida feita consciente. A capacidade de estar ligado à experiência vivida neste corpo, no momento presente, é o que dá cor e textura à vida, é o que dá magia a cada instante. Esta atenção plena e inteira é o que traz saciedade perante a experiência tal como está, extraindo da simplicidade a quintessência de estar vivo. A verdadeira liberdade não advém da possibilidade de escolhermos de entre um sem fim de experiências, ou de termos experiências imensamente requintadas e cheias de adereços, mas antes do podermos abrir mão de todos os quereres e de estar plenamente em paz com o momento tal como está, sem haver nada a acrescentar.

 

Nas tradições contemplativas, a prática de depurar a concentração no instante presente, seja com um foco mais estreito (meditação com objecto) ou com abrangência alargada (meditação sem objecto) é central no aquietar da mente e no cultivar da sabedoria e compaixão. É essencial para uma mente em paz escolher com sabedoria onde colocar a atenção. Nunca é demais relembrar o ditado que diz que onde está a atenção, é por onde a energia segue (“where attention goes, energy flows”).

A qualidade de atenção e a possibilidade de escolhermos onde a colocamos, é um tesouro do espírito e define-nos como seres humanos. Não será o resto um conjunto de condicionamentos, hábitos e estratégias causais a que chamamos “Eu”?

Esta qualidade de atenção existe em todos os seres humanos e é independente de credos ou teísmos. No mundo da hiper-informação, da hiper-produtividade e do hiper-consumismo em que vivemos, treinar a qualidade de atenção e escolher criteriosamente onde investir esta atenção, é um acto essencial de nutrição e de sanidade mental. É condição necessária ao autoconhecimento e autorrealização.

Só porque temos um palato capaz de sentir prazer com diferentes comidas, não vamos comer tudo o que os nossos olhos vêem. É consensual que chegaríamos a um ponto de obesidade e a graves problemas de saúde. No caso da mente, os resultados prejudiciais de dedicarmos atenção sem critério a todos os conteúdos e entorpecermo-nos com milhares de estímulos, não são tão óbvios. Mas as consequências não deixam de ser trágicas.

 

O que podemos fazer então?

Há muitas coisas que podemos fazer para contrapor este mundo de híper-informação e conseguir momentos de integração. As práticas de meditação, yoga, tai-chi, chi-kung, ou quaisquer outras técnicas de consciência corporal, são a melhor forma de conseguirmos unificar a mente, ancorar no momento presente, e sentirmo-nos mais enraizados no corpo. A tónica está em sair do modo fazer e passar gradualmente para o modo ser. Somos Seres-Humanos e não Afazeres-Humanos.

Podemos parar ao longo do dia várias vezes durante um minuto e respirar de forma consciente notando as sensações da inspiração e expiração no corpo. Podemos notar as sensações das pernas ou da sola dos pés enquanto caminhamos de um lado para o outro. Podemos tentar ter a disciplina de fazer uma só tarefa de cada vez: não enviar sms enquanto falamos com alguém, não falar ao telemóvel enquanto conduzimos, não ter vários separadores abertos no computador para ir saltitando de assunto em assunto. Podemos procurar ter contacto com a Natureza, dar um passeio no bosque ou na praia estando dedicado inteiramente aos sentidos.

 

Citando o teólogo e psicanalista – Rubem Alves: “Compreendi que a vida não é uma sonata que, para realizar sua beleza, tem que ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efémero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e de amor justifica a vida inteira.

 

Não importa quão longa é a nossa sonata ou quantos instrumentos estão a tocar, se não a escutarmos com atenção dedicada, podemos terminar esta existência num estalar de dedos, com um sabor amargo na boca e um vazio no peito. Por sua vez, um instante de vida acolhido por inteiro é uma experiência do domínio do sagrado.

Como nota final deixo o desafio ao leitor de fechar os olhos e respirar dedicando toda a sua atenção a este acto, como se fosse a primeira e a ultima vez. Pode ser que o leitor descubra neste movimento: o som das marés; o embalo de todas as ondas que já foram e serão; o estremecer de todas as estrelas; o sopro divino; ou até o pulsar da vida que nos relembra que vale a pena estar vivo.

 

Filipe Raposo

Escrito em Dezembro de 2016

Foto de Le Minh Phuong em Unsplash

 

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