Refúgios

29 de Junho, 2017

 

Sabes verdadeiramente o que és? És o manuscrito de uma carta divina. És um espelho reflectindo uma face nobre. Este universo não se encontra fora de ti. Olha dentro de ti; tudo o que queres, tu já és.”, Rumi

 

Guardo com carinho a memória de uma experiência de infância. Devia ter uns onze ou doze anos. Certo dia, peguei na bicicleta e pedalei até um pouco mais longe do que era habitual. Passei os vários bairros nos arredores de Évora, onde cresci, e continuei pelo campo fora uma meia dúzia de quilómetros. Decidi parar num prado que tinha um pequeno cabeço, algumas árvores e muito pasto. Larguei a bicicleta no meio de umas ervas e continuei até ao cabeço. Não sei porque o fiz. Ao chegar à pequena inclinação, deitei-me de costas no chão a ver passar as nuvens. Lembro-me de pensar que nesse preciso momento ninguém fazia ideia de onde eu estava. Primeiro, senti algum medo por estar tão longe de casa, depois, senti vergonha porque podia estar alguém a ver-me e achar que eu estava maluco. Olhei para todos os lados para ter a certeza. Não havia vivalma. Deixei-me ficar. Ali deitado no chão observei as nuvens a passar no céu, umas atrás das outras. Senti-me encantado, como um passarinho hipnotizado pela serpente. No meio deste sentimento de tranquilidade e bem-estar perdi a noção do tempo. Não sei dizer quantos minutos ou horas terei ali ficado, só sei que estive em paz com a existência. Finalmente, lembrei-me que podiam estar à minha procura, e que estaria na hora de regressar para não ter sarilhos.

Apesar de não o saber na altura, sinto agora que tive ali um vislumbre de algo especial. Por momentos, todo o meu ser se rendeu à experiência, não havia nada a melhorar, nada a controlar, nada a fazer. Naquele momento não havia separação entre mim e aquela nuvem que passava no céu. Não era a terra que me segurava, mas um colo de Mãe. Eu era uma rolhita contente a boiar num oceano de amor.

 

Dobro outra esquina do tempo, para redescobrir em mim, fresca, outra vivência. Esta vivência é de um sítio onde passei horas a fio. A janela da cozinha da casa de Évora onde cresci. A janela dava para as traseiras, para uns quantos quintais encaixados entre outros tantos prédios. Mais ao fundo o campo e o horizonte. Nos meses quentes costumava ficar a ver o entardecer e o voo dos andorinhões. É indescritível a paz que sentia sentado naquela janela. Ia-me deixando a marinar, numa luz que ia mudando o céu e tudo o que lhe ficava debaixo. O azul ia dando lugar ao amarelo, o amarelo aquecia até um dourado, que por sua vez apurava num ponto de caramelo acobreado. Dezenas, talvez centenas de andorinhões voavam a grandes velocidades, em voos rasantes e aparentemente aleatórios. O som de cada guincho como uma pincelada arrastada na tela auditiva. Se fechasse os olhos podia ver à minha frente uma pauta de rastros esvoaçantes. Não sei explicar porquê, mas aquela luz mansa a escorrer como água-mel, ao som daqueles silvos benignos, enchia-me o coração.

 

Mais adiante, noutro recanto da memória relembro o som do relógio de pêndulo da casa dos meus Avós paternos. Deveria ter uns quatro ou cinco anitos quando passei uma temporada na sua casa. Recordo como tudo tinha um ritmo lento. Após o almoço era religiosa a hora da sesta. Quase sempre acordava antes dos meus avós e ficava a entreter-me com uns legos, ou a olhar pela janela a ver quem passava lá fora. O único som era o tic-tac do relógio. Ainda hoje consigo sentir como aquele compasso me desacelerou, me marcou o ritmo da vida, e me ensinou as virtudes da paciência e da serenidade. Basta notar aquele tic-tac em mim para relembrar que não adianta lutar contra o tempo.

 

Habita também em mim, o momento precioso em que senti o calor da ternura e do afecto. Estava sentado nos joelhos da minha Mãe virado de frente para ela, na praia, à sombra de um toldo. Corria a brisa morna do fim de tarde. Devia ter uns cinco ou seis anos e lembro-me que a agarrava pelo pescoço e ela sorria para mim e segurava-me num abraço que não me deixava cair. E assim íamos demoradamente trocando beijinhos de esquimó nariz com nariz. Depois estudava-lhe os pontos das cócegas e ela os meus. Estávamos os dois a rir muito. Naquele momento senti que tudo correria bem e que a vida valia a pena.

 

Noutra caverna de tesouro surgem as mãos do meu Pai. Certo dia, teria eu uns seis ou sete anos, brincávamos sentados no sofá da sala. O jogo era simples, à vez, tínhamos que conseguir abrir o punho fechado do outro. Lembro-me dos dedos grossos e poderosos do meu Pai, que se fechavam num punho capaz de demolir paredes. Mas, ao serem tocados pelos meus deditos, os seus abriam-se com gentileza. Na sua vez, o meu Pai abria o meu punho facilmente, apertando um pouco as dobras do meu dedo mindinho, só o suficiente para sentir um pouco de dor, e, perceber que era tempo de largar. Aprendi nessa brincadeira, como a vida pode ser forte e gentil ao mesmo tempo. Aprendi que há outras formas de falar de amor e afecto para além das palavras, e, que o diálogo entre as mãos de duas pessoas, pode ser inesgotável. Naquela brincadeira as minhas mãos ganharam vida, e, daí em diante, jamais deixaram de procurar outras mãos.

 

Estas imagens e sentimentos fazem parte dos alicerces da minha identidade. Tenho em mim aquela nuvem que passou despreocupada com os afazeres dos homens. Em mim está o voo dos andorinhões que rasgam o céu e guincham celebrando a vida, ou o som do relógio da casa dos meus Avós. No meu coração haverá sempre um colo que me segurou e me acarinhou, um pôr-do-sol a anunciar o mistério para lá do entardecer, e, nas minhas mãos, a força e a gentileza ao segurar outras mãos.

 

Estas são algumas das minhas referências de felicidade, alguns dos meus tesouros e recursos para a vida. Por não dependerem de condições externas, estes são verdadeiros refúgios. Todos temos em nós estas sementes de luz que nunca esmorecem e que nada nem ninguém pode destruir. São buracos de fechadura por onde vislumbrámos o derradeiro refúgio da nossa essência. A luz que atravessa, estará sempre lá a convidar-nos de volta.

Desafio quem me lê, a dedicar alguns minutos a relembrar o caminho de volta a si, a procurar o buraco da fechadura. E, se o encontrar, desejo que possa estar preparado para rodar a chave, e, enfim despertar deste longo sonho.

 

Talvez um dia eu consiga fazer o mesmo. Talvez um dia eu perceba como a porta nunca esteve trancada.

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Junho de 2017

Foto de Mehdi Sepehri em Unsplash

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Guardo com carinho a memória de uma experiência de infância. Devia ter uns onze ou doze anos. Certo dia, peguei na bicicleta e pedalei até um pouco mais longe do que era habitual. Passei os vários bairros nos arredores de Évora, onde cresci, e continuei pelo campo fora uma meia dúzia de quilómetros. Decidi parar num prado que tinha um pequeno cabeço, algumas árvores e muito pasto. Larguei a bicicleta no meio de umas ervas e continuei até ao cabeço. Não sei porque o fiz. Ao chegar à pequena inclinação, deitei-me de costas no chão a ver passar as nuvens. Lembro-me de pensar que nesse preciso momento ninguém fazia ideia de onde eu estava. Primeiro, senti algum medo por estar tão longe de casa, depois, senti vergonha porque podia estar alguém a ver-me e achar que eu estava maluco. Olhei para todos os lados para ter a certeza. Não havia vivalma. Deixei-me ficar. Ali deitado no chão observei as nuvens a passar no céu, umas atrás das outras. Senti-me encantado, como um passarinho hipnotizado pela serpente. No meio deste sentimento de tranquilidade e bem-estar perdi a noção do tempo. Não sei dizer quantos minutos ou horas terei ali ficado, só sei que estive em paz com a existência. Finalmente, lembrei-me que podiam estar à minha procura, e que estaria na hora de regressar para não ter sarilhos.

Apesar de não o saber na altura, sinto agora que tive ali um vislumbre de algo especial. Por momentos, todo o meu ser se rendeu à experiência, não havia nada a melhorar, nada a controlar, nada a fazer. Naquele momento não havia separação entre mim e aquela nuvem que passava no céu. Não era a terra que me segurava, mas um colo de Mãe. Eu era uma rolhita contente a boiar num oceano de amor.

 

Dobro outra esquina do tempo, para redescobrir em mim, fresca, outra vivência. Esta vivência é de um sítio onde passei horas a fio. A janela da cozinha da casa de Évora onde cresci. A janela dava para as traseiras, para uns quantos quintais encaixados entre outros tantos prédios. Mais ao fundo o campo e o horizonte. Nos meses quentes costumava ficar a ver o entardecer e o voo dos andorinhões. É indescritível a paz que sentia sentado naquela janela. Ia-me deixando a marinar, numa luz que ia mudando o céu e tudo o que lhe ficava debaixo. O azul ia dando lugar ao amarelo, o amarelo aquecia até um dourado, que por sua vez apurava num ponto de caramelo acobreado. Dezenas, talvez centenas de andorinhões voavam a grandes velocidades, em voos rasantes e aparentemente aleatórios. O som de cada guincho como uma pincelada arrastada na tela auditiva. Se fechasse os olhos podia ver à minha frente uma pauta de rastros esvoaçantes. Não sei explicar porquê, mas aquela luz mansa a escorrer como água-mel, ao som daqueles silvos benignos, enchia-me o coração.

 

Mais adiante, noutro recanto da memória relembro o som do relógio de pêndulo da casa dos meus Avós paternos. Deveria ter uns quatro ou cinco anitos quando passei uma temporada na sua casa. Recordo como tudo tinha um ritmo lento. Após o almoço era religiosa a hora da sesta. Quase sempre acordava antes dos meus avós e ficava a entreter-me com uns legos, ou a olhar pela janela a ver quem passava lá fora. O único som era o tic-tac do relógio. Ainda hoje consigo sentir como aquele compasso me desacelerou, me marcou o ritmo da vida, e me ensinou as virtudes da paciência e da serenidade. Basta notar aquele tic-tac em mim para relembrar que não adianta lutar contra o tempo.

 

Habita também em mim, o momento precioso em que senti o calor da ternura e do afecto. Estava sentado nos joelhos da minha Mãe virado de frente para ela, na praia, à sombra de um toldo. Corria a brisa morna do fim de tarde. Devia ter uns cinco ou seis anos e lembro-me que a agarrava pelo pescoço e ela sorria para mim e segurava-me num abraço que não me deixava cair. E assim íamos demoradamente trocando beijinhos de esquimó nariz com nariz. Depois estudava-lhe os pontos das cócegas e ela os meus. Estávamos os dois a rir muito. Naquele momento senti que tudo correria bem e que a vida valia a pena.

 

Noutra caverna de tesouro surgem as mãos do meu Pai. Certo dia, teria eu uns seis ou sete anos, brincávamos sentados no sofá da sala. O jogo era simples, à vez, tínhamos que conseguir abrir o punho fechado do outro. Lembro-me dos dedos grossos e poderosos do meu Pai, que se fechavam num punho capaz de demolir paredes. Mas, ao serem tocados pelos meus deditos, os seus abriam-se com gentileza. Na sua vez, o meu Pai abria o meu punho facilmente, apertando um pouco as dobras do meu dedo mindinho, só o suficiente para sentir um pouco de dor, e, perceber que era tempo de largar. Aprendi nessa brincadeira, como a vida pode ser forte e gentil ao mesmo tempo. Aprendi que há outras formas de falar de amor e afecto para além das palavras, e, que o diálogo entre as mãos de duas pessoas, pode ser inesgotável. Naquela brincadeira as minhas mãos ganharam vida, e, daí em diante, jamais deixaram de procurar outras mãos.

 

Estas imagens e sentimentos fazem parte dos alicerces da minha identidade. Tenho em mim aquela nuvem que passou despreocupada com os afazeres dos homens. Em mim está o voo dos andorinhões que rasgam o céu e guincham celebrando a vida, ou o som do relógio da casa dos meus Avós. No meu coração haverá sempre um colo que me segurou e me acarinhou, um pôr-do-sol a anunciar o mistério para lá do entardecer, e, nas minhas mãos, a força e a gentileza ao segurar outras mãos.

 

Estas são algumas das minhas referências de felicidade, alguns dos meus tesouros e recursos para a vida. Por não dependerem de condições externas, estes são verdadeiros refúgios. Todos temos em nós estas sementes de luz que nunca esmorecem e que nada nem ninguém pode destruir. São buracos de fechadura por onde vislumbrámos o derradeiro refúgio da nossa essência. A luz que atravessa, estará sempre lá a convidar-nos de volta.

Desafio quem me lê, a dedicar alguns minutos a relembrar o caminho de volta a si, a procurar o buraco da fechadura. E, se o encontrar, desejo que possa estar preparado para rodar a chave, e, enfim despertar deste longo sonho.

 

Talvez um dia eu consiga fazer o mesmo. Talvez um dia eu perceba como a porta nunca esteve trancada.

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Junho de 2017

Foto de Mehdi Sepehri em Unsplash

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