O Mundo em Nós

29 de Janeiro, 2018

 

Ser humano é como ser uma hospedaria

onde todas as manhãs há uma nova chegada.

Uma alegria, uma depressão, uma mesquinharia,

uma percepção momentânea chega,

como visitantes inesperados…”, Rumi em A Hospedaria

 

Já repararam que em nós, há como que uma assembleia, ou um comité de vozes que nos vai trazendo opiniões, pontos de vista, exigências, bitaites, criticas, coscuvilhices, etc? Estas vozes entram em cena, tomam o palco enquanto lhes é dado espaço de antena, ou seja, enquanto lhes damos atenção e as levamos a sério e, depois, vão saindo. Umas vezes falam-nos a solo, outras vezes criam diálogos, outras ainda – quando a nossa confusão e agitação mental é maior -, falam várias “a despique”.

 

Há a voz do crítico para quem nada do que fazemos é suficientemente bom. Em geral podemos reconhecer o crítico pelo tom pouco amigável com que se nos dirige, e, pela sua linguagem em absolutos: “Nunca fazes nada bem”, ou “És sempre a mesma m*!#%”.

 

Há a voz da criança mimada de 3 anos, que se ofende por tudo e por nada, basta não lhe darem o que quer. A nossa criança de 3 anos não é muito dotada de palavras, mas quando traz ao corpo a expressão da raiva, a sua energia pode cegar-nos. Se lhe dermos o palco por completo, pode levar-nos a confrontações de vida ou morte, simplesmente porque o outro gosta de azul e nós de vermelho.

 

Há a voz do narcisista que se acha especial e mais esclarecido que os outros. É aquela parte de nós que se acha a ultima bolacha do pacote, e, precisa que a audiência o confirme. Quando é ele a tomar o palco, não prestamos realmente muita atenção à opinião dos outros, tudo o que possam dizer é pequeno demais.

 

Há a voz insegura da criança, que nos diz, que quando conseguirmos realizar tal e tal projecto, quando nos transformarmos na pessoa X, Y ou Z, aí talvez consigamos merecer um pouquinho do amor que ambicionamos, aí não correremos tanto o risco de ser abandonados.

 

Há a voz da vítima que se sente injustiçada, que nos segreda que os outros à nossa volta receberam a vida numa bandeja prateada, enquanto a nós só saíram cartas baixas. Se lhe dermos muita atenção, o mundo torna-se um lugar frio e cruel, e todo o tipo de misérias vêm na nossa direcção.

 

Estas vozes são muitas vezes informadas por perspectivas demasiado estreitas, ou ecoam a partir de lugares de mágoa, carência ou ressentimento, e não de sabedoria e visão abrangente.

As práticas contemplativas podem ajudar-nos a notar algumas destas facetas, e, podem ajudar a não levarmos tanto a sério as estórias que nos contamos. Meditar pode ajudar-nos a desconstruir ou flexibilizar crenças e a relativizar pontos de vista. Quanto mais nos visitarmos, mais nos tornamos compassivos às nossas incongruências e vulnerabilidades.

Quando pudermos reconhecer e cuidar das feridas que fizeram despontar o nosso crítico, o nosso narcisista, a nossa criança mimada ou insegura, a nossa vítima, a nossa…, talvez aí os nossos espinhos comecem a cair, talvez as nossas arestas se suavizem, e talvez aí as vozes se silenciem. Daí poderá emergir uma voz interior mais madura e conectada com a intuição.

O reflexo externo desta proposta de caminho, poderá ver-se na permeabilidade crescente à diversidade de pessoas que existem no mundo. Em vez de rejeitarmos de imediato alguém só porque tem um aspecto diferente, tem uma forma de pensar ou de sentir diferente, é de outro País ou de outra cultura, poderemos ver surgir a receptividade e a empatia. O olhar de rejeição poderá dar lugar a um olhar de curiosidade e acolhimento, por reconhecermos no outro as nossas falhas e fragilidades. O olhar ganha o hábito de ir na direcção do que nos aproxima e não tanto do que nos torna diferentes.

O Mundo necessita ardentemente desta capacidade de hospedarmos o outro em nós. Para tanto, é importante percorrer o caminho de nos esvaziarmos do “nós”, ou como diz o ditado Sufi: “polir o coração até este espelhar todo o Mundo”.

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Janeiro de 2018

Foto de Andrei Lazarev em Unsplash

 

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onde todas as manhãs há uma nova chegada.

Uma alegria, uma depressão, uma mesquinharia,

uma percepção momentânea chega,

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Já repararam que em nós, há como que uma assembleia, ou um comité de vozes que nos vai trazendo opiniões, pontos de vista, exigências, bitaites, criticas, coscuvilhices, etc? Estas vozes entram em cena, tomam o palco enquanto lhes é dado espaço de antena, ou seja, enquanto lhes damos atenção e as levamos a sério e, depois, vão saindo. Umas vezes falam-nos a solo, outras vezes criam diálogos, outras ainda – quando a nossa confusão e agitação mental é maior -, falam várias “a despique”.

 

Há a voz do crítico para quem nada do que fazemos é suficientemente bom. Em geral podemos reconhecer o crítico pelo tom pouco amigável com que se nos dirige, e, pela sua linguagem em absolutos: “Nunca fazes nada bem”, ou “És sempre a mesma m*!#%”.

 

Há a voz da criança mimada de 3 anos, que se ofende por tudo e por nada, basta não lhe darem o que quer. A nossa criança de 3 anos não é muito dotada de palavras, mas quando traz ao corpo a expressão da raiva, a sua energia pode cegar-nos. Se lhe dermos o palco por completo, pode levar-nos a confrontações de vida ou morte, simplesmente porque o outro gosta de azul e nós de vermelho.

 

Há a voz do narcisista que se acha especial e mais esclarecido que os outros. É aquela parte de nós que se acha a ultima bolacha do pacote, e, precisa que a audiência o confirme. Quando é ele a tomar o palco, não prestamos realmente muita atenção à opinião dos outros, tudo o que possam dizer é pequeno demais.

 

Há a voz insegura da criança, que nos diz, que quando conseguirmos realizar tal e tal projecto, quando nos transformarmos na pessoa X, Y ou Z, aí talvez consigamos merecer um pouquinho do amor que ambicionamos, aí não correremos tanto o risco de ser abandonados.

 

Há a voz da vítima que se sente injustiçada, que nos segreda que os outros à nossa volta receberam a vida numa bandeja prateada, enquanto a nós só saíram cartas baixas. Se lhe dermos muita atenção, o mundo torna-se um lugar frio e cruel, e todo o tipo de misérias vêm na nossa direcção.

 

Estas vozes são muitas vezes informadas por perspectivas demasiado estreitas, ou ecoam a partir de lugares de mágoa, carência ou ressentimento, e não de sabedoria e visão abrangente.

As práticas contemplativas podem ajudar-nos a notar algumas destas facetas, e, podem ajudar a não levarmos tanto a sério as estórias que nos contamos. Meditar pode ajudar-nos a desconstruir ou flexibilizar crenças e a relativizar pontos de vista. Quanto mais nos visitarmos, mais nos tornamos compassivos às nossas incongruências e vulnerabilidades.

Quando pudermos reconhecer e cuidar das feridas que fizeram despontar o nosso crítico, o nosso narcisista, a nossa criança mimada ou insegura, a nossa vítima, a nossa…, talvez aí os nossos espinhos comecem a cair, talvez as nossas arestas se suavizem, e talvez aí as vozes se silenciem. Daí poderá emergir uma voz interior mais madura e conectada com a intuição.

O reflexo externo desta proposta de caminho, poderá ver-se na permeabilidade crescente à diversidade de pessoas que existem no mundo. Em vez de rejeitarmos de imediato alguém só porque tem um aspecto diferente, tem uma forma de pensar ou de sentir diferente, é de outro País ou de outra cultura, poderemos ver surgir a receptividade e a empatia. O olhar de rejeição poderá dar lugar a um olhar de curiosidade e acolhimento, por reconhecermos no outro as nossas falhas e fragilidades. O olhar ganha o hábito de ir na direcção do que nos aproxima e não tanto do que nos torna diferentes.

O Mundo necessita ardentemente desta capacidade de hospedarmos o outro em nós. Para tanto, é importante percorrer o caminho de nos esvaziarmos do “nós”, ou como diz o ditado Sufi: “polir o coração até este espelhar todo o Mundo”.

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Janeiro de 2018

Foto de Andrei Lazarev em Unsplash

 

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