O Amor não é uma Ilha, é um Arquipélago

2 de Janeiro, 2017

 

Não há solidão intransponível. Todos os caminhos têm a mesma finalidade, conduzir-nos até aos outros que somos.“, Pablo Neruda

 

Já estive sozinho em vários períodos da minha vida e também já experimentei a solidão. Não estive necessariamente solitário sempre que estive sozinho e já me senti profundamente só no meio de pessoas, ou até numa relação amorosa.

A solidão ou o isolamento social dão-se pela ausência de vínculos verdadeiros, dão-se pela ausência de alguém que nos toque, que nos testemunhe e valide os nossos sentires, as nossas inquietações, enfim, a nossa humanidade.

O pior castigo que o ser humano pode suportar é a ausência forçada do outro, o deserto existencial. Situações de isolamento forçado podem levar à loucura e até à morte. A mente precisa de amigos e o coração precisa de abraçar outros corações. Quem não se lembra do Wilson, o amigo imaginário que Tom Hanks criou, para sobreviver à solidão forçada numa ilha deserta?

O sentimento continuado de isolamento e solidão é perigoso para um ser social como nós.

 

O psicólogo e neurocientista – John Cacioppo fez uma série de descobertas na área da genética social. Entre outras, encontrou uma relação entre a solidão e a forma como os genes se expressam. Em indivíduos cujas vidas levam a um sentimento continuado de solidão e isolamento social, o genoma alterou-se de tal forma, que a resposta antiviral diminuiu enquanto o risco de doenças inflamatórias aumentou. Os resultados levaram a concluir que os cérebros destes indivíduos relacionaram o sentimento de solidão com perigo, activando no corpo uma resposta defensiva. Esta reacção de stress poderá ser útil num período temporal curto para a sobrevivência imediata, no entanto, no longo prazo, a saúde do individuo fica hipotecada. Os estados inflamatórios prolongados promovem o desenvolvimento de células cancerígenas e doenças neuro degenerativas. Cacioppo concluiu que o nosso corpo “…está programado para fazer da miséria sentença de morte…”.

Em situações extremas de solidão e angústia emocional, pode mesmo morrer-se de desgosto – daí o nome de síndrome do coração partido. Quando numa relação amorosa de uma vida inteira, um dos companheiros morre, o coração do outro parece perder uma razão para continuar a bater. O Eu não quer existir sem o Nós.

 

O estudo mais longo alguma vez realizado acerca do desenvolvimento de adultos, foi feito pela Universidade de Harvard ao longo de 75 anos. No decurso do estudo, foram seguidos os trajectos de 724 indivíduos desde adolescentes a idosos, e documentados vários indicadores de saúde, bem-estar, escolhas de vida, vínculos sociais, etc. A grande conclusão retirada deste monumental esforço foi clara: boas relações (amigos, família, comunidade) mantêm-nos mais felizes e saudáveis; a solidão prejudica a saúde e mata precocemente. O sentimento de pertença é essencial para que o ser humano possa extrair propósito no estar vivo.

 

A solidão inibe a capacidade de empatia pois o individuo está mais centrado na sua auto-preservação ao pressentir um mundo frio, perigoso e injusto. A rejeição social leva a um sentimento de insignificância e alienação, tanto da pessoa que é rejeitada como de quem rejeita. O medo de não pertencer à tribo está profundamente gravado no nosso ADN. Maior que este medo só o medo da morte. Na verdade, nos tempos em que o ser humano vivia em tribo, ser expulso do grupo representava a morte. É por isso que o sentimento de pertença social e a necessidade de validação por parte dos outros é um motivador tão poderoso nas nossas vidas.

É da nossa natureza estarmos interligados em estruturas sociais que vão desde o casal, à família, ao grupo de amigos, à comunidade, ao país, à espécie humana e à vida. A forma como estamos espelhados uns nos outros e nos afectamos é recursiva, dinâmica e contínua. O monge budista e activista pela paz – Tich Nhat Hanh, diz que o termo mais exacto para descrever a nossa existência é o Entre-Ser, pois tal como qualquer fenómeno no Universo, não existimos como uma entidade separada, mas sim em contínua interdependência.

 

Temos em nós parte significativa de todos quantos se cruzaram connosco. Se quisermos ser rigorosos, temos em nós toda a história da espécie humana, ou melhor, toda a história da vida, pois nenhum dos nossos ancestrais surgiu do nada ou viveu sem a interdependência com outros. Há uma linha temporal na qual estamos implicados, como o corredor de estafeta que passa o testemunho. Carregamos os medos e as forças dos que passaram, temos em nós muitas das suas esperanças, coragens e mesquinhezes. Podemos olhar para tudo isto, cuidar, e, devolver o testemunho com mais amor que medo, mais alegria que ódio. Por isso se diz que cada vez que sorrimos, todos os nossos ancestrais sorriem connosco, e todos os nossos descendentes sorriem também. Nunca é demais relembrar que quando colocamos as sementes da alegria, da paz e do amor, não o fazemos apenas por nós. Essa ferida que curas no teu coração, sara a dor de toda a humanidade.

É esta sabedoria que várias culturas expressam em gestos e rituais tão importantes como o cumprimento. Temos o cumprimento Zulu “Sawubona” que significa “eu vejo-te”, e a resposta “Ngikhona” que significa “estou aqui”. Até me teres visto a minha existência não estava completa, só depois que me viste eu me tornei real.

“Namastê” é um cumprimento do Sul da Ásia, em particular da India e do Nepal e remete para um reconhecimento para lá do ego. Significa que o divino em mim reconhece e saúda o divino em ti. Há a noção de que somos únicos, um tesouro em si mesmos, mas é quando os divinos se reconhecem que a nossa grandiosidade se cumpre. É quando uma estrela vê outra estrela que surge a constelação.

 

Nas relações saudáveis e afectivas podemos crescer e atingir a melhor versão de nós mesmos, pois o outro devolve o que somos, onde estamos e quão longe estamos do que podemos ser. Uma relação de vínculo seguro, com amor e com verdade, é um bálsamo que pode sarar mesmo as feridas mais antigas, até mesmo aquelas cicatrizes de amor condicional que nos marcaram desde o início desta jornada.

O trabalho individual de reflexão e auto-conhecimento é a outra parte da jornada de crescimento. É onde nos vamos familiarizando com as sensações e emoções, onde podemos contactar as nossas necessidades e aspirações, onde vamos mapeando o território dos nossos recursos e feridas, como um jardineiro que cuida do seu jardim, dedicando atenção e tomando as acções mais apropriadas ao florescimento da vida. A introspecção por si só pode não chegar, há muitos lugares difíceis de visitar sozinho, e, há muitos “ângulos mortos” por perspectivas e crenças restritivas que nos separam da verdade.

Estar apenas na relação com o outro, sem nos contactarmos intimamente tampouco será suficiente. Corremos o risco de perder de vista o território das nossas necessidades e da nossa identidade. Corremos o risco de não nos responsabilizarmos pelo sofrimento que é nosso e pelas consequências de agirmos a partir dessa dor.

 

As duas polaridades: estar comigo e estar com o outro complementam-se e é desejável pulsar entre ambas. O fio da nossa vida precisa de se entretecer noutros fios, de se tornar pano. Assim, quando os ventos mundanos ameaçarem virar-nos de pernas para o ar, podemos desfraldar pano e atravessar a tormenta.

 

O bicho-homem precisa de pontes, na medida em que o Amor não é uma Ilha, é um Arquipélago.

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Janeiro de 2017

Foto de Liane Metzler em Unsplash

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Não há solidão intransponível. Todos os caminhos têm a mesma finalidade, conduzir-nos até aos outros que somos.“, Pablo Neruda

 

Já estive sozinho em vários períodos da minha vida e também já experimentei a solidão. Não estive necessariamente solitário sempre que estive sozinho e já me senti profundamente só no meio de pessoas, ou até numa relação amorosa.

A solidão ou o isolamento social dão-se pela ausência de vínculos verdadeiros, dão-se pela ausência de alguém que nos toque, que nos testemunhe e valide os nossos sentires, as nossas inquietações, enfim, a nossa humanidade.

O pior castigo que o ser humano pode suportar é a ausência forçada do outro, o deserto existencial. Situações de isolamento forçado podem levar à loucura e até à morte. A mente precisa de amigos e o coração precisa de abraçar outros corações. Quem não se lembra do Wilson, o amigo imaginário que Tom Hanks criou, para sobreviver à solidão forçada numa ilha deserta?

O sentimento continuado de isolamento e solidão é perigoso para um ser social como nós.

 

O psicólogo e neurocientista – John Cacioppo fez uma série de descobertas na área da genética social. Entre outras, encontrou uma relação entre a solidão e a forma como os genes se expressam. Em indivíduos cujas vidas levam a um sentimento continuado de solidão e isolamento social, o genoma alterou-se de tal forma, que a resposta antiviral diminuiu enquanto o risco de doenças inflamatórias aumentou. Os resultados levaram a concluir que os cérebros destes indivíduos relacionaram o sentimento de solidão com perigo, activando no corpo uma resposta defensiva. Esta reacção de stress poderá ser útil num período temporal curto para a sobrevivência imediata, no entanto, no longo prazo, a saúde do individuo fica hipotecada. Os estados inflamatórios prolongados promovem o desenvolvimento de células cancerígenas e doenças neuro degenerativas. Cacioppo concluiu que o nosso corpo “…está programado para fazer da miséria sentença de morte…”.

Em situações extremas de solidão e angústia emocional, pode mesmo morrer-se de desgosto – daí o nome de síndrome do coração partido. Quando numa relação amorosa de uma vida inteira, um dos companheiros morre, o coração do outro parece perder uma razão para continuar a bater. O Eu não quer existir sem o Nós.

 

O estudo mais longo alguma vez realizado acerca do desenvolvimento de adultos, foi feito pela Universidade de Harvard ao longo de 75 anos. No decurso do estudo, foram seguidos os trajectos de 724 indivíduos desde adolescentes a idosos, e documentados vários indicadores de saúde, bem-estar, escolhas de vida, vínculos sociais, etc. A grande conclusão retirada deste monumental esforço foi clara: boas relações (amigos, família, comunidade) mantêm-nos mais felizes e saudáveis; a solidão prejudica a saúde e mata precocemente. O sentimento de pertença é essencial para que o ser humano possa extrair propósito no estar vivo.

 

A solidão inibe a capacidade de empatia pois o individuo está mais centrado na sua auto-preservação ao pressentir um mundo frio, perigoso e injusto. A rejeição social leva a um sentimento de insignificância e alienação, tanto da pessoa que é rejeitada como de quem rejeita. O medo de não pertencer à tribo está profundamente gravado no nosso ADN. Maior que este medo só o medo da morte. Na verdade, nos tempos em que o ser humano vivia em tribo, ser expulso do grupo representava a morte. É por isso que o sentimento de pertença social e a necessidade de validação por parte dos outros é um motivador tão poderoso nas nossas vidas.

É da nossa natureza estarmos interligados em estruturas sociais que vão desde o casal, à família, ao grupo de amigos, à comunidade, ao país, à espécie humana e à vida. A forma como estamos espelhados uns nos outros e nos afectamos é recursiva, dinâmica e contínua. O monge budista e activista pela paz – Tich Nhat Hanh, diz que o termo mais exacto para descrever a nossa existência é o Entre-Ser, pois tal como qualquer fenómeno no Universo, não existimos como uma entidade separada, mas sim em contínua interdependência.

 

Temos em nós parte significativa de todos quantos se cruzaram connosco. Se quisermos ser rigorosos, temos em nós toda a história da espécie humana, ou melhor, toda a história da vida, pois nenhum dos nossos ancestrais surgiu do nada ou viveu sem a interdependência com outros. Há uma linha temporal na qual estamos implicados, como o corredor de estafeta que passa o testemunho. Carregamos os medos e as forças dos que passaram, temos em nós muitas das suas esperanças, coragens e mesquinhezes. Podemos olhar para tudo isto, cuidar, e, devolver o testemunho com mais amor que medo, mais alegria que ódio. Por isso se diz que cada vez que sorrimos, todos os nossos ancestrais sorriem connosco, e todos os nossos descendentes sorriem também. Nunca é demais relembrar que quando colocamos as sementes da alegria, da paz e do amor, não o fazemos apenas por nós. Essa ferida que curas no teu coração, sara a dor de toda a humanidade.

É esta sabedoria que várias culturas expressam em gestos e rituais tão importantes como o cumprimento. Temos o cumprimento Zulu “Sawubona” que significa “eu vejo-te”, e a resposta “Ngikhona” que significa “estou aqui”. Até me teres visto a minha existência não estava completa, só depois que me viste eu me tornei real.

“Namastê” é um cumprimento do Sul da Ásia, em particular da India e do Nepal e remete para um reconhecimento para lá do ego. Significa que o divino em mim reconhece e saúda o divino em ti. Há a noção de que somos únicos, um tesouro em si mesmos, mas é quando os divinos se reconhecem que a nossa grandiosidade se cumpre. É quando uma estrela vê outra estrela que surge a constelação.

 

Nas relações saudáveis e afectivas podemos crescer e atingir a melhor versão de nós mesmos, pois o outro devolve o que somos, onde estamos e quão longe estamos do que podemos ser. Uma relação de vínculo seguro, com amor e com verdade, é um bálsamo que pode sarar mesmo as feridas mais antigas, até mesmo aquelas cicatrizes de amor condicional que nos marcaram desde o início desta jornada.

O trabalho individual de reflexão e auto-conhecimento é a outra parte da jornada de crescimento. É onde nos vamos familiarizando com as sensações e emoções, onde podemos contactar as nossas necessidades e aspirações, onde vamos mapeando o território dos nossos recursos e feridas, como um jardineiro que cuida do seu jardim, dedicando atenção e tomando as acções mais apropriadas ao florescimento da vida. A introspecção por si só pode não chegar, há muitos lugares difíceis de visitar sozinho, e, há muitos “ângulos mortos” por perspectivas e crenças restritivas que nos separam da verdade.

Estar apenas na relação com o outro, sem nos contactarmos intimamente tampouco será suficiente. Corremos o risco de perder de vista o território das nossas necessidades e da nossa identidade. Corremos o risco de não nos responsabilizarmos pelo sofrimento que é nosso e pelas consequências de agirmos a partir dessa dor.

 

As duas polaridades: estar comigo e estar com o outro complementam-se e é desejável pulsar entre ambas. O fio da nossa vida precisa de se entretecer noutros fios, de se tornar pano. Assim, quando os ventos mundanos ameaçarem virar-nos de pernas para o ar, podemos desfraldar pano e atravessar a tormenta.

 

O bicho-homem precisa de pontes, na medida em que o Amor não é uma Ilha, é um Arquipélago.

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Janeiro de 2017

Foto de Liane Metzler em Unsplash

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