Felicidade ou Sentido? Felicidade e Sentido!

12 de Dezembro, 2016

 

Mais vale cumprir o próprio dharma, ainda que de forma imperfeita, do que cumprir de maneira perfeita o dever de outrem.”, Bhagavad Gita (cap III, v.35)

 

A nossa cultura vende-nos a ideia de que seremos felizes e teremos uma boa vida se nos sentirmos bem, ponto final. Nesse seguimento, temos toda uma indústria de bens e serviços pronta para nos vender uma porção de felicidade. É uma promessa de atalho para a felicidade instantânea. No entanto, é uma promessa vazia. Querer segurar o momento em que sentimos um prazer momentâneo para fazer disso a nossa realização, é como tentar agarrar uma bolha de sabão, ou correr atrás dum arco-íris. Em geral isto leva a querer repetir e aumentar a dose, para no somatório dos vários prazeres se tentar colher uma vida bem vivida.

 

Ter prazer e desfrutar é um impulso importante da vida e não é errado por si só. O problema é querer fazer disto um caminho e um fim em si mesmo. Por ser desprovida de dimensão ética, esta versão hedonista de felicidade não preenche o individuo, e, é nociva para a sociedade e para o planeta como ecossistema. A felicidade, tal como o amor, e de resto quase todas as coisas que realmente importam, não podem ser atingidas de forma directa, são antes o resultado de um processo de entrega, de um sentido de coerência e paz com o mais fundo de si.

 

Estar vivo acarreta inevitavelmente algum nível de dor, desconforto, medo, ansiedade. Em suma: sofrimento. Estar em contacto com o facto de que tudo está em constante mudança e de que pouco ou nada podemos fazer para o controlar é assustador. Estar em contacto com as nossas feridas emocionais, com a perda, com as nossas limitações e falhas, e, com a nossa finitude dói demasiado. Não é de estranhar portanto que o caminho da fuga ao desprazer, através do álcool, das drogas, da comida, dos videojogos, da violência gratuita, da sexualidade desligada de afectividade, etc., seja tão popular.

 

Mas há outro tipo de contentamento que surge da perspectiva da abundância ao invés da carência. Trata-se da possibilidade de um prazer saudável e autorregulado, que não representa uma busca compulsiva ou uma fuga ao sofrimento. Este é um prazer que advém dos sentidos e das sensações, de uma experiência de deslumbre perante a beleza da existência no momento presente. Um prazer que resulta dum contacto profundo com a experiência de estarmos vivos, sem querer segurar nem reprimir as emoções, e que por isso flui naturalmente. Deste prazer da vida a reconhecer-se e a querer ser mais, brota naturalmente a empatia, o amor e a compaixão pela diversidade do Todo.

 

Há coisa de 2500 anos atrás, houve um individuo excepcional que se sentou debaixo de uma figueira, e, no culminar da sua busca espiritual, realizou a possibilidade de libertação do sofrimento e de como cumprir todo o nosso potencial. Chamou a esta proposta: O Caminho do Meio. O seu nome era Siddartha Gautama. E o caminho por ele apontado é o que se equilibra entre os opostos: avidez <-> aversão; indulgência no prazer <-> supressão/repressão.

 

Cerca de 200 anos mais tarde e mais a Ocidente, um grande pensador Grego, elaborou uma fórmula igualmente sábia para uma vida bem vivida. Segundo Aristóteles existiria uma forma de felicidade maior, que não é um sentimento fugaz, nem um destino onde chegar, é antes uma prática para a vida. Eudaimonia é o seu nome. Significa viver de forma virtuosa, centrando a existência em torno de valores de dignidade e ética, rumo à excelência. Esta excelência traduzir-se-ia no florescer pleno de todo o potencial do individuo.

 

Como dizia Carl Jung: “O importante não é ser perfeito, o importante é ser inteiro”. Uma vida bem vivida, passa por viver de acordo com os seus próprios valores, de forma a que estes espelhem uma aceitação da própria história e da própria identidade dando significado à sua existência. Isto traz auto-afirmação, auto-validação, autoria da própria vida e responsabilidade. Uma vida de fidelidade e integridade ao que queremos representar e defender, não será com certeza o caminho mais fácil, mas é um modelo de vida que nos suportará e preencherá.

 

Ao invés de esperarmos receber algo da vida para nos realizarmos, a questão deve ser feita ao contrário: O que é que a vida espera de mim? De que forma é que a minha singularidade, todo o meu repertório de pensamento, sentimento, criação, aspiração, vulnerabilidade, forças e recursos pode contribuir para algo maior do que eu próprio? De que forma é que a cor única e irrepetível da minha existência, pode ser uma pincelada no Grande Quadro do que foi, é, e do que será? Como dizia Pablo Picasso: “O sentido da vida é encontrarmos o nosso dom, o propósito da nossa vida é oferecê-lo”. E é por isso que é tão importante termos projectos em que sentimos que nos entregamos e contribuímos para algo pleno de significado que nos faça florescer. É uma grande tragédia privarmos o mundo da nossa “flor”. Não importa a dimensão do projecto, ou se é um ou vários, mas é importante que seja algo que nos mobilize com satisfação e contentamento. O propósito da nossa vida não tem que se traduzir em algo épico, mas convém ser algo realista, concretizável. Se queremos ter como propósito de vida tornarmo-nos atletas olímpicos, mas temos cinquenta anos e excesso de peso, ou se o nosso propósito é viver uma relação de amor, mas escolhemos estar com alguém comprometido e que não nos ama, ou alguém inalcançável (uma estrela do cinema noutro País), das duas uma: ou estamos a seguir um propósito que não é o nosso e não nos conhecemos de todo, ou estamos inconscientemente a boicotar-nos, ao apontar para algo inalcançável.

 

De acordo com vários autores da psicologia, os que buscam a versão hedonista de felicidade são pessoas que experienciam prazer e alegria por receberem, enquanto que as pessoas que levam vidas com propósito e significado colhem alegria de dar aos outros. A felicidade ensimesmada está muito ligada com o dar ao ego o que ele pede, enquanto que o propósito transcende o interesse individual.

Temos em comum com os restantes animais esta busca de prazer, mas somos humanos pela possibilidade de buscarmos um sentido e um propósito.

 

Friedrich Nietzsche, o filósofo Alemão do Séc. XIX dizia que “Quem tem um porquê pelo qual viver pode suportar quase qualquer como”. Viktor Frankl, o médico psiquiatra Austríaco que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, testemunhou no meio dum inferno na Terra, como Nietzsche estava certo. É sempre possível encontrar sentido para a vida mesmo no pior dos sofrimentos. É a derradeira liberdade humana: a de podermos escolher a atitude com que encaramos as nossas circunstâncias, pois “A vida nunca é insuportável pelas circunstancias, apenas pela falta de sentido e propósito.

 

Ter uma vida prazerosa e ter uma vida com propósito, são situações que muitas vezes coincidem, mas, em rigor, são fórmulas existenciais diferentes. Na verdade, muitas vezes uma vida de propósito implica ir em direcção ao sofrimento e abdicar de prazer para si mesmo, mas no longo prazo é o que permite que a nossa semente floresça. Como dizia Viktor Frankl: “Ser humano aponta-nos e dirige-nos sempre a algo ou alguém, que não nós mesmos – seja isso um sentido a cumprir ou outro ser humano a encontrar. Quanto mais se esquece do seu “eu” – entregando-se a uma causa ou a outra pessoa para amar – mais humano se tornará.

 

Somos seres temporais “presos” no momento presente. Agora, é o único instante em que podemos viver de verdade e sentir a felicidade. Mas também é verdade que temos memória e projectamos o futuro. Parece ser que, em termos existenciais, precisamos tanto da felicidade do momento presente – que parte do desfrutar pleno da vida pelo contacto profundo aqui e agora – como precisamos de propósito – aquilo que dá sentido à nossa narrativa, ligando passado, presente e futuro.

 

O Sentido aponta-nos um caminho coerente do passado para o presente e daí para o futuro. A Felicidade colhe os frutos desse caminho momento a momento.

 

 

Filipe Raposo

Escrito em Dezembro de 2016

Foto de Aditya Chinchure em Unsplash

 

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A nossa cultura vende-nos a ideia de que seremos felizes e teremos uma boa vida se nos sentirmos bem, ponto final. Nesse seguimento, temos toda uma indústria de bens e serviços pronta para nos vender uma porção de felicidade. É uma promessa de atalho para a felicidade instantânea. No entanto, é uma promessa vazia. Querer segurar o momento em que sentimos um prazer momentâneo para fazer disso a nossa realização, é como tentar agarrar uma bolha de sabão, ou correr atrás dum arco-íris. Em geral isto leva a querer repetir e aumentar a dose, para no somatório dos vários prazeres se tentar colher uma vida bem vivida.

 

Ter prazer e desfrutar é um impulso importante da vida e não é errado por si só. O problema é querer fazer disto um caminho e um fim em si mesmo. Por ser desprovida de dimensão ética, esta versão hedonista de felicidade não preenche o individuo, e, é nociva para a sociedade e para o planeta como ecossistema. A felicidade, tal como o amor, e de resto quase todas as coisas que realmente importam, não podem ser atingidas de forma directa, são antes o resultado de um processo de entrega, de um sentido de coerência e paz com o mais fundo de si.

 

Estar vivo acarreta inevitavelmente algum nível de dor, desconforto, medo, ansiedade. Em suma: sofrimento. Estar em contacto com o facto de que tudo está em constante mudança e de que pouco ou nada podemos fazer para o controlar é assustador. Estar em contacto com as nossas feridas emocionais, com a perda, com as nossas limitações e falhas, e, com a nossa finitude dói demasiado. Não é de estranhar portanto que o caminho da fuga ao desprazer, através do álcool, das drogas, da comida, dos videojogos, da violência gratuita, da sexualidade desligada de afectividade, etc., seja tão popular.

 

Mas há outro tipo de contentamento que surge da perspectiva da abundância ao invés da carência. Trata-se da possibilidade de um prazer saudável e autorregulado, que não representa uma busca compulsiva ou uma fuga ao sofrimento. Este é um prazer que advém dos sentidos e das sensações, de uma experiência de deslumbre perante a beleza da existência no momento presente. Um prazer que resulta dum contacto profundo com a experiência de estarmos vivos, sem querer segurar nem reprimir as emoções, e que por isso flui naturalmente. Deste prazer da vida a reconhecer-se e a querer ser mais, brota naturalmente a empatia, o amor e a compaixão pela diversidade do Todo.

 

Há coisa de 2500 anos atrás, houve um individuo excepcional que se sentou debaixo de uma figueira, e, no culminar da sua busca espiritual, realizou a possibilidade de libertação do sofrimento e de como cumprir todo o nosso potencial. Chamou a esta proposta: O Caminho do Meio. O seu nome era Siddartha Gautama. E o caminho por ele apontado é o que se equilibra entre os opostos: avidez <-> aversão; indulgência no prazer <-> supressão/repressão.

 

Cerca de 200 anos mais tarde e mais a Ocidente, um grande pensador Grego, elaborou uma fórmula igualmente sábia para uma vida bem vivida. Segundo Aristóteles existiria uma forma de felicidade maior, que não é um sentimento fugaz, nem um destino onde chegar, é antes uma prática para a vida. Eudaimonia é o seu nome. Significa viver de forma virtuosa, centrando a existência em torno de valores de dignidade e ética, rumo à excelência. Esta excelência traduzir-se-ia no florescer pleno de todo o potencial do individuo.

 

Como dizia Carl Jung: “O importante não é ser perfeito, o importante é ser inteiro”. Uma vida bem vivida, passa por viver de acordo com os seus próprios valores, de forma a que estes espelhem uma aceitação da própria história e da própria identidade dando significado à sua existência. Isto traz auto-afirmação, auto-validação, autoria da própria vida e responsabilidade. Uma vida de fidelidade e integridade ao que queremos representar e defender, não será com certeza o caminho mais fácil, mas é um modelo de vida que nos suportará e preencherá.

 

Ao invés de esperarmos receber algo da vida para nos realizarmos, a questão deve ser feita ao contrário: O que é que a vida espera de mim? De que forma é que a minha singularidade, todo o meu repertório de pensamento, sentimento, criação, aspiração, vulnerabilidade, forças e recursos pode contribuir para algo maior do que eu próprio? De que forma é que a cor única e irrepetível da minha existência, pode ser uma pincelada no Grande Quadro do que foi, é, e do que será? Como dizia Pablo Picasso: “O sentido da vida é encontrarmos o nosso dom, o propósito da nossa vida é oferecê-lo”. E é por isso que é tão importante termos projectos em que sentimos que nos entregamos e contribuímos para algo pleno de significado que nos faça florescer. É uma grande tragédia privarmos o mundo da nossa “flor”. Não importa a dimensão do projecto, ou se é um ou vários, mas é importante que seja algo que nos mobilize com satisfação e contentamento. O propósito da nossa vida não tem que se traduzir em algo épico, mas convém ser algo realista, concretizável. Se queremos ter como propósito de vida tornarmo-nos atletas olímpicos, mas temos cinquenta anos e excesso de peso, ou se o nosso propósito é viver uma relação de amor, mas escolhemos estar com alguém comprometido e que não nos ama, ou alguém inalcançável (uma estrela do cinema noutro País), das duas uma: ou estamos a seguir um propósito que não é o nosso e não nos conhecemos de todo, ou estamos inconscientemente a boicotar-nos, ao apontar para algo inalcançável.

 

De acordo com vários autores da psicologia, os que buscam a versão hedonista de felicidade são pessoas que experienciam prazer e alegria por receberem, enquanto que as pessoas que levam vidas com propósito e significado colhem alegria de dar aos outros. A felicidade ensimesmada está muito ligada com o dar ao ego o que ele pede, enquanto que o propósito transcende o interesse individual.

Temos em comum com os restantes animais esta busca de prazer, mas somos humanos pela possibilidade de buscarmos um sentido e um propósito.

 

Friedrich Nietzsche, o filósofo Alemão do Séc. XIX dizia que “Quem tem um porquê pelo qual viver pode suportar quase qualquer como”. Viktor Frankl, o médico psiquiatra Austríaco que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, testemunhou no meio dum inferno na Terra, como Nietzsche estava certo. É sempre possível encontrar sentido para a vida mesmo no pior dos sofrimentos. É a derradeira liberdade humana: a de podermos escolher a atitude com que encaramos as nossas circunstâncias, pois “A vida nunca é insuportável pelas circunstancias, apenas pela falta de sentido e propósito.

 

Ter uma vida prazerosa e ter uma vida com propósito, são situações que muitas vezes coincidem, mas, em rigor, são fórmulas existenciais diferentes. Na verdade, muitas vezes uma vida de propósito implica ir em direcção ao sofrimento e abdicar de prazer para si mesmo, mas no longo prazo é o que permite que a nossa semente floresça. Como dizia Viktor Frankl: “Ser humano aponta-nos e dirige-nos sempre a algo ou alguém, que não nós mesmos – seja isso um sentido a cumprir ou outro ser humano a encontrar. Quanto mais se esquece do seu “eu” – entregando-se a uma causa ou a outra pessoa para amar – mais humano se tornará.

 

Somos seres temporais “presos” no momento presente. Agora, é o único instante em que podemos viver de verdade e sentir a felicidade. Mas também é verdade que temos memória e projectamos o futuro. Parece ser que, em termos existenciais, precisamos tanto da felicidade do momento presente – que parte do desfrutar pleno da vida pelo contacto profundo aqui e agora – como precisamos de propósito – aquilo que dá sentido à nossa narrativa, ligando passado, presente e futuro.

 

O Sentido aponta-nos um caminho coerente do passado para o presente e daí para o futuro. A Felicidade colhe os frutos desse caminho momento a momento.

 

 

Filipe Raposo

Escrito em Dezembro de 2016

Foto de Aditya Chinchure em Unsplash

 

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