Centro

23 de Março, 2017

 

Quantas vezes ao longo da vida dei por mim a pensar, que, quando as circunstâncias forem de determinada forma, tudo ficará bem. Quando tiver uma determinada quantidade de dinheiro, terei segurança, e não terei que me preocupar com mais nada. Quando estiver numa relação de amor com esta ou aquela pessoa, aí sim, a vida será um deleite. Quando realizar aquele projecto épico, que maravilha, vão-me amar e a vida terá sido grandiosa. Algo dentro de mim está sempre à procura de chão firme.

É legítimo. É assim que esta mente-corpo evoluiu para preservar a integridade desta vida em primeiro lugar. Mas, chego a um ponto em que preciso de me perguntar: até que ponto estas historias que me vou contando são a verdade? Será que alguma vez haverá chão firme? Chegará o dia em que tudo será ausência de tensões, ansiedades e medos? A resposta a que cheguei é: NÃO. Pelo menos não dessa forma idílica, cristalizada, numa ausência de autoria, acção, ajuste, crescimento.

 

Estas histórias que me vou contando, têm uma importância q.b.. São referências para objectivos que valorizo, dão-me pistas acerca da minha necessidade de me sentir seguro, de criar, de ser validado, de ser amado, mas não são a verdade, nem me definem por completo. Importante também é prestar atenção à intensidade destes quereres. Quando quero encaixar a realidade à força na caixa da minha expectativa, a vida começa a trazer dor. E dói tanto mais quanto maior essa intensidade do querer.

Este reconhecimento por si só já traz muita paz. É um passo enorme, poder largar um bocadinho a urgência de que a vida se ajuste aos meus quereres, e, perceber que esta voz que me segreda o caminho da felicidade, é quase sempre uma opinião pouco esclarecida, de um narrador a quem não deram a totalidade do argumento.

 

Vários autores se debruçaram sobre esta nossa vontade de chegarmos a um estado de serenidade contínua. Sigmund Freud chamou “instinto de morte” ou Thanatos ao desejo da pessoa retornar a um estado inorgânico de ausência de tensões, em oposição ao “instinto de vida” ou Eros, associado a prazer, sobrevivência e reprodução.

Já Carl Jung concebeu a psique como um sistema autorregulador da libido, que tende para o equilíbrio dinâmico entre os opostos consciente/inconsciente. Este equilíbrio provém das profundezas ocultas do inconsciente que “luta” incessantemente para restaurar o equilíbrio energético do sistema face ao que vai sendo vivenciado no consciente.

Carl Jung referia-se ao estado de unificação da psique – objectivo do processo de individuação -, ou de reconciliação das polaridades consciente/inconsciente, luz/sombra como: “Self”. O “Self” é o arquétipo central, a que Jung atribuía a ordem e totalidade da personalidade. Este arquétipo é representado pelo símbolo impessoal do círculo ou da mandala.

Jung foi buscar mecanismos da física para procurar entender a relação entre consciente e inconsciente e a energia em trânsito entre esses dois pólos. Segundo o princípio da entropia, qualquer fluxo de energia requer diferenças de potencial entre os vários componentes de um sistema. Em consequência, nenhuma energia seria produzida num estado de perfeito equilíbrio. Um sistema decresce em potência e estagna quando todas as suas partes estão em perfeito equilíbrio. Este fim da dinâmica energética só é possível em sistemas fechados (que não existem na natureza). Portanto, é aparentemente impossível que um organismo vivo atinja um equilíbrio perfeito e permanente.

 

No entanto, um organismo pode tender para o equilíbrio, instante a instante, apesar de continuar a existir fluxo de energia e dinâmica no sistema. É um pouco como conduzir um monociclo. Em cada instante o condutor precisa de fazer pequenos ajustes e introduzir correcções para preservar o equilíbrio.

 

A Natureza está cheia de exemplos que demonstram a existência de equilíbrios dinâmicos em torno de um centro. Para um observador no centro do furacão, existe um equilíbrio em que habita a serenidade. No entanto, a preservação desse equilíbrio requer que o observador acompanhe o sistema para se manter sempre no seu centro. Em todos os sistemas, em diferentes escalas, desde o átomo à galáxia, há um centro vivo, dinâmico, que se aproxima da ausência de tensões.

Por outro lado, a Natureza ensina-nos também que momentos críticos de tensão são essenciais para se darem saltos significativos na evolução da vida. Foi assim em todos os eventos de extinção em massa no nosso Planeta. Ao rápido declínio da diversidade de vida, seguiram-se posteriormente períodos em que prosperaram e evoluíram espécies mais adaptadas, mais sofisticadas e complexas.

 

O que é que estes exemplos da Natureza nos podem ensinar?

Que é bom relembrar que também nós somos Natureza, e, como tal, nos podemos alinhar no sentido de pulsarmos em torno do nosso centro e se possível aí permanecer nem que seja por momentos. O centro em nós é aquela qualidade de consciência desperta, que se aproxima mais daquilo que verdadeiramente somos. É um sentido de inteireza e equilíbrio conseguido momento a momento, que se traduz na possibilidade de abarcar toda a experiência da vida com amor, alegria, compaixão e equanimidade. Através da maturação, crescimento e expansão da consciência, os hábitos que anteriormente potenciavam o sofrimento, vão sendo substituídos por uma forma de estar mais sábia e que responde de forma hábil ao que a vida pede em cada momento.

Penso que todos nós já vivemos momentos destes, de contacto íntimo com a nossa essência, aos quais chegámos de forma mais ou menos deliberada. Pode ter sido num momento de conexão autêntica, num contemplar de algo belo e sublime, ou talvez até num momento de dor em que nos demos total permissão para sentir.

 

Pelas circunstâncias da vida, a nossa zona de conforto – aquele lugar familiar onde nos fomos entrincheirando para preservar algum calor no coração – pode estar mais ou menos afastada do nosso centro. Como alguém disse um dia: “Uma zona de conforto é um sítio maravilhoso, mas nunca cresce lá nada.”. Ironicamente a zona de conforto não é onde há menos tensão, mas onde a tensão já é nossa conhecida de longa data. O ser humano tende a trocar a incerteza e o vazio, pela dor conhecida. Como dizia Dostoiévski n’Os Irmãos Karamazov: “O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde todas as certezas moram.“.

 

Chega enfim o momento em que a tensão atinge um ponto critico e, se tudo correr bem, estimulará um movimento novo, uma vontade de saltar para o vazio e vir a crescer. É preciso ter alguma fé no processo e acreditar que do vazio vai surgir o caminho das pedras que impedirá a queda no abismo.

Expandir progressivamente a nossa zona de conforto, até esta abarcar o centro da nossa experiência, requer não um, mas vários saltos para o desconhecido. Tantos saltos quanto necessário para tornar o desconhecido algo tão natural como respirar, para que a relação com o mistério da vida seja um caso de amor que se renova a cada instante. É simples e não é fácil.

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Março de 2017

Foto: Filipe Raposo

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É legítimo. É assim que esta mente-corpo evoluiu para preservar a integridade desta vida em primeiro lugar. Mas, chego a um ponto em que preciso de me perguntar: até que ponto estas historias que me vou contando são a verdade? Será que alguma vez haverá chão firme? Chegará o dia em que tudo será ausência de tensões, ansiedades e medos? A resposta a que cheguei é: NÃO. Pelo menos não dessa forma idílica, cristalizada, numa ausência de autoria, acção, ajuste, crescimento.

 

Estas histórias que me vou contando, têm uma importância q.b.. São referências para objectivos que valorizo, dão-me pistas acerca da minha necessidade de me sentir seguro, de criar, de ser validado, de ser amado, mas não são a verdade, nem me definem por completo. Importante também é prestar atenção à intensidade destes quereres. Quando quero encaixar a realidade à força na caixa da minha expectativa, a vida começa a trazer dor. E dói tanto mais quanto maior essa intensidade do querer.

Este reconhecimento por si só já traz muita paz. É um passo enorme, poder largar um bocadinho a urgência de que a vida se ajuste aos meus quereres, e, perceber que esta voz que me segreda o caminho da felicidade, é quase sempre uma opinião pouco esclarecida, de um narrador a quem não deram a totalidade do argumento.

 

Vários autores se debruçaram sobre esta nossa vontade de chegarmos a um estado de serenidade contínua. Sigmund Freud chamou “instinto de morte” ou Thanatos ao desejo da pessoa retornar a um estado inorgânico de ausência de tensões, em oposição ao “instinto de vida” ou Eros, associado a prazer, sobrevivência e reprodução.

Já Carl Jung concebeu a psique como um sistema autorregulador da libido, que tende para o equilíbrio dinâmico entre os opostos consciente/inconsciente. Este equilíbrio provém das profundezas ocultas do inconsciente que “luta” incessantemente para restaurar o equilíbrio energético do sistema face ao que vai sendo vivenciado no consciente.

Carl Jung referia-se ao estado de unificação da psique – objectivo do processo de individuação -, ou de reconciliação das polaridades consciente/inconsciente, luz/sombra como: “Self”. O “Self” é o arquétipo central, a que Jung atribuía a ordem e totalidade da personalidade. Este arquétipo é representado pelo símbolo impessoal do círculo ou da mandala.

Jung foi buscar mecanismos da física para procurar entender a relação entre consciente e inconsciente e a energia em trânsito entre esses dois pólos. Segundo o princípio da entropia, qualquer fluxo de energia requer diferenças de potencial entre os vários componentes de um sistema. Em consequência, nenhuma energia seria produzida num estado de perfeito equilíbrio. Um sistema decresce em potência e estagna quando todas as suas partes estão em perfeito equilíbrio. Este fim da dinâmica energética só é possível em sistemas fechados (que não existem na natureza). Portanto, é aparentemente impossível que um organismo vivo atinja um equilíbrio perfeito e permanente.

 

No entanto, um organismo pode tender para o equilíbrio, instante a instante, apesar de continuar a existir fluxo de energia e dinâmica no sistema. É um pouco como conduzir um monociclo. Em cada instante o condutor precisa de fazer pequenos ajustes e introduzir correcções para preservar o equilíbrio.

 

A Natureza está cheia de exemplos que demonstram a existência de equilíbrios dinâmicos em torno de um centro. Para um observador no centro do furacão, existe um equilíbrio em que habita a serenidade. No entanto, a preservação desse equilíbrio requer que o observador acompanhe o sistema para se manter sempre no seu centro. Em todos os sistemas, em diferentes escalas, desde o átomo à galáxia, há um centro vivo, dinâmico, que se aproxima da ausência de tensões.

Por outro lado, a Natureza ensina-nos também que momentos críticos de tensão são essenciais para se darem saltos significativos na evolução da vida. Foi assim em todos os eventos de extinção em massa no nosso Planeta. Ao rápido declínio da diversidade de vida, seguiram-se posteriormente períodos em que prosperaram e evoluíram espécies mais adaptadas, mais sofisticadas e complexas.

 

O que é que estes exemplos da Natureza nos podem ensinar?

Que é bom relembrar que também nós somos Natureza, e, como tal, nos podemos alinhar no sentido de pulsarmos em torno do nosso centro e se possível aí permanecer nem que seja por momentos. O centro em nós é aquela qualidade de consciência desperta, que se aproxima mais daquilo que verdadeiramente somos. É um sentido de inteireza e equilíbrio conseguido momento a momento, que se traduz na possibilidade de abarcar toda a experiência da vida com amor, alegria, compaixão e equanimidade. Através da maturação, crescimento e expansão da consciência, os hábitos que anteriormente potenciavam o sofrimento, vão sendo substituídos por uma forma de estar mais sábia e que responde de forma hábil ao que a vida pede em cada momento.

Penso que todos nós já vivemos momentos destes, de contacto íntimo com a nossa essência, aos quais chegámos de forma mais ou menos deliberada. Pode ter sido num momento de conexão autêntica, num contemplar de algo belo e sublime, ou talvez até num momento de dor em que nos demos total permissão para sentir.

 

Pelas circunstâncias da vida, a nossa zona de conforto – aquele lugar familiar onde nos fomos entrincheirando para preservar algum calor no coração – pode estar mais ou menos afastada do nosso centro. Como alguém disse um dia: “Uma zona de conforto é um sítio maravilhoso, mas nunca cresce lá nada.”. Ironicamente a zona de conforto não é onde há menos tensão, mas onde a tensão já é nossa conhecida de longa data. O ser humano tende a trocar a incerteza e o vazio, pela dor conhecida. Como dizia Dostoiévski n’Os Irmãos Karamazov: “O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde todas as certezas moram.“.

 

Chega enfim o momento em que a tensão atinge um ponto critico e, se tudo correr bem, estimulará um movimento novo, uma vontade de saltar para o vazio e vir a crescer. É preciso ter alguma fé no processo e acreditar que do vazio vai surgir o caminho das pedras que impedirá a queda no abismo.

Expandir progressivamente a nossa zona de conforto, até esta abarcar o centro da nossa experiência, requer não um, mas vários saltos para o desconhecido. Tantos saltos quanto necessário para tornar o desconhecido algo tão natural como respirar, para que a relação com o mistério da vida seja um caso de amor que se renova a cada instante. É simples e não é fácil.

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Março de 2017

Foto: Filipe Raposo

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