Quanto é suficiente?

7 de Dezembro, 2020

Ouvir a narração deste texto:

 

Não há maior falta
do que ceder aos seus desejos.
Não há maior infelicidade
do que não reconhecer que se tem o “suficiente”.
Não há maior vício
do que querer obter sempre.
Pois conhecer que o suficiente é suficiente
garante um perpétuo “suficiente” (ch’angtsu)

– Lao Tsé, Tao Te King, XLVI, 2.

 

Lembra-se da ultima vez que sentiu que o que tinha era suficiente? Recorda-se de sentir contentamento com a sua realidade tal qual a percepciona, sem ter que acrescentar o que quer que seja?

Porque é que tantas vezes colocamos a nossa felicidade refém do desejo de algo que ainda não temos? Porque é que condicionamos o nosso contentamento a circunstâncias que raramente (para não dizer nunca) controlamos?

Convido-a(o) a ler algumas reflexões acerca deste tema.

 

Confundimos qualidade com quantidade

Há uma forma de ansiedade, relacionada com este tema de querer ter mais, e que provavelmente já todos sentimos em algum momento das nossas vidas. Tem a ver em parte com aquela crença irracional, de que todas as outras pessoas se estão sempre a divertir mais do que nós, a aproveitar melhor as oportunidades, a viajar para melhores sítios, a encontrar as pessoas perfeitas, os negócios perfeitos, e por aí fora. A cultura mainstream, e as redes sociais em particular, são as grandes disseminadoras desta fantasia de vida perfeita com muito photoshop à mistura, onde só há lugar para a felicidade, para o que é belo e para o que reflecte uma abundância material.

Foi dado o termo de síndrome de FOMO, ao medo de estar a perder algo. Este medo leva a um desejo compulsivo de experienciar mais e mais, motivado não pelo que a experiência nos pode trazer de benéfico, mas pelo medo do que potencialmente podemos perder. É a crença irracional de que o próximo evento/local/pessoa/viagem/etc, será o perfeito para nós, e que nós o estaremos a perder ao ficarmos resignados onde estamos, com quem estamos, com o que temos. Tem que ver com aquela cantilena do António Variações, de que “só estou bem, aonde não estou, porque só quero ir, aonde não vou…”.

Projectamos a visão de uma experiência muito prazerosa e de contentamento, a nossa Shangri-La, e buscamo-la incessantemente através de produtos, experiências, viagens, relações, pelo receio de que a felicidade nos esteja a passar ao lado.

Esta ansiedade existencial pelo que não se tem, rouba-nos da possibilidade de habitar por completo cada momento de cada experiência, saboreando-a, integrando-a, permitindo que esta se traduza num determinado significado para nós.

Algures começámos a confundir qualidade com quantidade. Tornámo-nos tão racionais que começámos a encarar a vida como uma lista de conquistas ou pontuações a obter antes de morrermos, para considerarmos que valeu a pena estar vivo.

Começar a sair desta tendência, implica ter expectativas realistas e compreender que não existe a experiência/pessoa/local perfeito. Implica parar de correr atrás do próximo arco-íris e desfrutar este que aqui está enquanto dura, aqui neste exacto espaço e tempo em que nos encontramos. Significa simplificarmos a nossa vida e focarmo-nos no que realmente importa para nós.

Em ultima instância estaremos sempre a perder oportunidades, haverão sempre coisas a passar-nos ao lado. Cada vez que escolhemos onde investimos o nosso tempo e energia, há uma série de possibilidades que estamos a rejeitar. E isto não tem que nos causar angústia necessariamente.

Quantas vezes já dei por mim a pensar em como nunca poderei ver todos os filmes, ler todos os livros, visitar todos os sítios do mundo, falar com todas as pessoas que gostaria. Tenho vindo a aprender a fazer as pazes com este facto. Relembrar-me da finitude é um exercício que me ajuda a contrariar a dispersão e a ansiedade que vem com o oceano de possibilidades existentes.

 

O paradoxo da escolha

Neste mundo globalizado, onde há tanta liberdade de escolha, paradoxalmente, para o nosso próprio descontentamento, criámos as condições para acentuar ainda mais esta vertigem de coleccionar experiências.

Na cultura vigente, é consensual que melhorar o bem-estar de cada indivíduo, passa por maximizar o seu nível de liberdade, o que por sua vez se consegue aumentando o número de escolhas ao seu alcance. Desta forma o indivíduo poderá atingir o seu nível óptimo de liberdade através das escolhas que melhor se aproximam do que necessita.

No entanto, paradoxalmente, não é assim que o ser humano funciona. Numa famosa palestra, Barry Schwartz revela-nos que ter um numero muito grande de escolhas leva a um fenómeno de paralisia e ansiedade. Ficamos bloqueados perante tantas possibilidades, e incapazes de nos comprometermos com apenas uma. O que acontece é que de cada vez que fazemos uma escolha, uma parte nossa fica a imaginar como seria o caminho não tomado, e isto causa sofrimento.

Outro aspecto relevante é a forma como as nossas expectativas ficam inflacionadas quando existe uma imensidão de escolhas. No meio de tantas escolhas surge a expectativa de encontrarmos algo perfeito para nós, e, como é irrealista encontrar o produto ou experiência perfeita de forma permanente, acabamos por nos recriminar a nós mesmos por não termos sido capazes de escolher acertadamente.

Sumarizando, Barry Schwartz refere que o segredo da felicidade é baixar as nossas expectativas e ter limites saudáveis e realistas nas várias dimensões da nossa vida.

Já Dan Gilbert, numa não menos famosa palestra , diz-nos que quando a vida nos impõe circunstâncias, quando nos dita a ausência de escolhas, surge daí a possibilidade de apreciarmos mais aquilo que temos. Como se a nossa psique possuísse um sistema imunitário, capaz de construir felicidade face a situações em que não há possibilidade de escolha ou autoria da nossa parte.

O que isto nos mostra também, é que não devemos cair no erro de sobrevalorizar determinadas situações de vida ou conquistas, pelo que nos podem trazer de felicidade. Na verdade, por vezes, não conseguirmos aquilo que queremos, coincide com aquilo que na realidade necessitávamos.

Não sei quanto a vocês, mas a mim esta reflexão traz-me contentamento. Contentamento por acolher a ideia de que não há um único caminho de felicidade e realização para cada um de nós. O que parece mais certo, é que são inúmeros os caminhos e as circunstâncias em que podemos colher realização, felicidade e sentido. Mesmo os caminhos duros, cheios de pedras, buracos, curvas, subidas tortuosas, emboscadas, mesmo esses guardam a possibilidade de encontrarmos contentamento.

O que importa não é tanto o que nos acontece fruto das nossas escolhas, mas mais como nos relacionamos com o que nos acontece.

 

Demasiada riqueza material isola-nos

Uma série de estudos apontaram para o facto, de que a partir de certo nível de riqueza material e estatuto social, a empatia, o comportamento ético e a capacidade de compaixão pelos outros se reduz significativamente.

Isto parece contra-intuitivo, uma vez que seria de imaginar que uma pessoa rica, ao já ter mais do que suficiente para si, se preocuparia mais com as necessidades dos outros, enquanto que por outro lado, ter poucos recursos levaria ao egoísmo. No entanto, o que parece acontecer, é que a riqueza e abundância material trazem um sentido de autonomia e independência dos outros, bem como um sentido de superioridade face aos que menos têm. Ou seja, quanto menos temos que depender dos outros, mais ausentes estamos da compreensão de que vivemos numa teia de interdependência que nos liga a todos os outros seres. Ser muito rico leva-nos a viver numa bolha, de forma muito auto-centrada, desconectados das outras várias realidades. Este tipo de vivência está longe de ser propicio ao desenvolvimento de sabedoria e compaixão.

Ao invés, é nos meios em que não há tanta afluência material que as redes de entre-ajuda e cooperação são mais fortes.

Talvez seja daqui que vem aquele velho ditado, que diz que “é mais fácil passar um camelo no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

 

No meio está a virtude

O que muitos sábios da humanidade já várias vezes referiram, é que a virtude quase sempre se encontra nos equilíbrios. Vivermos num ambiente em que quase não existem escolhas, como o caso de contextos de pobreza extrema, doença extrema, de escravidão, ou de encarceramento, torna tão estéril a possibilidade de encontrar paz e contentamento, quanto um ambiente em que quase todas as escolhas são possíveis, ou as posses materiais muito elevadas.

Haverá algures um equilíbrio no que toca a escolhas ao nosso alcance, e no que toca à quantidade de posses materiais, que será mais propicio a focarmo-nos no essencial. De igual forma acredito num equilíbrio entre contentarmo-nos com o que temos, onde estamos e com quem estamos, ao mesmo tempo que não perdemos de vista aspirações e sonhos significativos e conectados com as nossas necessidades mais autenticas. Aproveito para referir que estas necessidades mais autenticas não podem ser atendidas apenas através de posses materiais. Está bom de ver que estes equilíbrios de que aqui falo, não são o que a nossa cultura dominante exibe na sua montra, ou nos impele a alcançar.

 

Transcender os nossos condicionamentos

Toda a nossa biologia e forma como evoluímos nos empurra para esta dinâmica básica de ir atrás do prazer e fugir ao desprazer. Muitas vezes a própria fuga ao desprazer é conseguida através da busca de prazer. É um jogo no qual ficamos reféns do desejo, e como já terá reparado, os desejos provêm de uma fonte que nunca seca.

Fazendo uso exclusivo deste repertório, somos joguetes neste sistema de hiperprodução e hiperconsumo, empurrados de um lado para o outro, sem possibilidade de encontrar paz. Por um lado inventam-nos a cada momento mil e um desejos, por outro, sofremos pelas profundas desigualdades sociais inerentes a este modelo. A busca do prazer através do ter perpetua e prende-nos na nossa versão mais primária.

Como podemos então encontrar alguma paz e contentamento? A proposta de vários mestres da antiguidade (Buda, Lao Tsé, Aristóteles, Jesus Cristo, etc) nos quais me revejo, é a de transcendermos o nosso condicionamento mais básico e aprendermos a relacionar-nos com o prazer de forma sábia. Passa por aprender a ser mais, em vez de ter mais. Passa por reconhecer quais os tipos de prazer que não nos aprisionam no sofrimento. Passa por um processo de auto-conhecimento profundo, e de entendimento do que de verdade é importante para nós. Passa por treinar o reconhecimento da saciedade e abundância nas coisas tal como estão, e mais ainda, ensaiarmos a gratidão por tanto quanto já temos.

 

A gratidão desbloqueia a abundância da vida. Ela torna o que temos em suficiente, e mais. Ela torna a negação em aceitação, o caos em ordem, a confusão em claridade. Ela pode transformar uma refeição em um banquete, uma casa em um lar, um estranho em um amigo. A gratidão dá sentido ao nosso passado, traz paz para o hoje, e cria uma visão para o amanhã.”, Melody Beattie

 

 

Texto escrito em Dezembro de 2020

Filipe Raposo

Imagem: Steve Cutts, extraído de www.stevecutts.com

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Não há maior falta
do que ceder aos seus desejos.
Não há maior infelicidade
do que não reconhecer que se tem o “suficiente”.
Não há maior vício
do que querer obter sempre.
Pois conhecer que o suficiente é suficiente
garante um perpétuo “suficiente” (ch’angtsu)

– Lao Tsé, Tao Te King, XLVI, 2.

 

Lembra-se da ultima vez que sentiu que o que tinha era suficiente? Recorda-se de sentir contentamento com a sua realidade tal qual a percepciona, sem ter que acrescentar o que quer que seja?

Porque é que tantas vezes colocamos a nossa felicidade refém do desejo de algo que ainda não temos? Porque é que condicionamos o nosso contentamento a circunstâncias que raramente (para não dizer nunca) controlamos?

Convido-a(o) a ler algumas reflexões acerca deste tema.

 

Confundimos qualidade com quantidade

Há uma forma de ansiedade, relacionada com este tema de querer ter mais, e que provavelmente já todos sentimos em algum momento das nossas vidas. Tem a ver em parte com aquela crença irracional, de que todas as outras pessoas se estão sempre a divertir mais do que nós, a aproveitar melhor as oportunidades, a viajar para melhores sítios, a encontrar as pessoas perfeitas, os negócios perfeitos, e por aí fora. A cultura mainstream, e as redes sociais em particular, são as grandes disseminadoras desta fantasia de vida perfeita com muito photoshop à mistura, onde só há lugar para a felicidade, para o que é belo e para o que reflecte uma abundância material.

Foi dado o termo de síndrome de FOMO, ao medo de estar a perder algo. Este medo leva a um desejo compulsivo de experienciar mais e mais, motivado não pelo que a experiência nos pode trazer de benéfico, mas pelo medo do que potencialmente podemos perder. É a crença irracional de que o próximo evento/local/pessoa/viagem/etc, será o perfeito para nós, e que nós o estaremos a perder ao ficarmos resignados onde estamos, com quem estamos, com o que temos. Tem que ver com aquela cantilena do António Variações, de que “só estou bem, aonde não estou, porque só quero ir, aonde não vou…”.

Projectamos a visão de uma experiência muito prazerosa e de contentamento, a nossa Shangri-La, e buscamo-la incessantemente através de produtos, experiências, viagens, relações, pelo receio de que a felicidade nos esteja a passar ao lado.

Esta ansiedade existencial pelo que não se tem, rouba-nos da possibilidade de habitar por completo cada momento de cada experiência, saboreando-a, integrando-a, permitindo que esta se traduza num determinado significado para nós.

Algures começámos a confundir qualidade com quantidade. Tornámo-nos tão racionais que começámos a encarar a vida como uma lista de conquistas ou pontuações a obter antes de morrermos, para considerarmos que valeu a pena estar vivo.

Começar a sair desta tendência, implica ter expectativas realistas e compreender que não existe a experiência/pessoa/local perfeito. Implica parar de correr atrás do próximo arco-íris e desfrutar este que aqui está enquanto dura, aqui neste exacto espaço e tempo em que nos encontramos. Significa simplificarmos a nossa vida e focarmo-nos no que realmente importa para nós.

Em ultima instância estaremos sempre a perder oportunidades, haverão sempre coisas a passar-nos ao lado. Cada vez que escolhemos onde investimos o nosso tempo e energia, há uma série de possibilidades que estamos a rejeitar. E isto não tem que nos causar angústia necessariamente.

Quantas vezes já dei por mim a pensar em como nunca poderei ver todos os filmes, ler todos os livros, visitar todos os sítios do mundo, falar com todas as pessoas que gostaria. Tenho vindo a aprender a fazer as pazes com este facto. Relembrar-me da finitude é um exercício que me ajuda a contrariar a dispersão e a ansiedade que vem com o oceano de possibilidades existentes.

 

O paradoxo da escolha

Neste mundo globalizado, onde há tanta liberdade de escolha, paradoxalmente, para o nosso próprio descontentamento, criámos as condições para acentuar ainda mais esta vertigem de coleccionar experiências.

Na cultura vigente, é consensual que melhorar o bem-estar de cada indivíduo, passa por maximizar o seu nível de liberdade, o que por sua vez se consegue aumentando o número de escolhas ao seu alcance. Desta forma o indivíduo poderá atingir o seu nível óptimo de liberdade através das escolhas que melhor se aproximam do que necessita.

No entanto, paradoxalmente, não é assim que o ser humano funciona. Numa famosa palestra, Barry Schwartz revela-nos que ter um numero muito grande de escolhas leva a um fenómeno de paralisia e ansiedade. Ficamos bloqueados perante tantas possibilidades, e incapazes de nos comprometermos com apenas uma. O que acontece é que de cada vez que fazemos uma escolha, uma parte nossa fica a imaginar como seria o caminho não tomado, e isto causa sofrimento.

Outro aspecto relevante é a forma como as nossas expectativas ficam inflacionadas quando existe uma imensidão de escolhas. No meio de tantas escolhas surge a expectativa de encontrarmos algo perfeito para nós, e, como é irrealista encontrar o produto ou experiência perfeita de forma permanente, acabamos por nos recriminar a nós mesmos por não termos sido capazes de escolher acertadamente.

Sumarizando, Barry Schwartz refere que o segredo da felicidade é baixar as nossas expectativas e ter limites saudáveis e realistas nas várias dimensões da nossa vida.

Já Dan Gilbert, numa não menos famosa palestra , diz-nos que quando a vida nos impõe circunstâncias, quando nos dita a ausência de escolhas, surge daí a possibilidade de apreciarmos mais aquilo que temos. Como se a nossa psique possuísse um sistema imunitário, capaz de construir felicidade face a situações em que não há possibilidade de escolha ou autoria da nossa parte.

O que isto nos mostra também, é que não devemos cair no erro de sobrevalorizar determinadas situações de vida ou conquistas, pelo que nos podem trazer de felicidade. Na verdade, por vezes, não conseguirmos aquilo que queremos, coincide com aquilo que na realidade necessitávamos.

Não sei quanto a vocês, mas a mim esta reflexão traz-me contentamento. Contentamento por acolher a ideia de que não há um único caminho de felicidade e realização para cada um de nós. O que parece mais certo, é que são inúmeros os caminhos e as circunstâncias em que podemos colher realização, felicidade e sentido. Mesmo os caminhos duros, cheios de pedras, buracos, curvas, subidas tortuosas, emboscadas, mesmo esses guardam a possibilidade de encontrarmos contentamento.

O que importa não é tanto o que nos acontece fruto das nossas escolhas, mas mais como nos relacionamos com o que nos acontece.

 

Demasiada riqueza material isola-nos

Uma série de estudos apontaram para o facto, de que a partir de certo nível de riqueza material e estatuto social, a empatia, o comportamento ético e a capacidade de compaixão pelos outros se reduz significativamente.

Isto parece contra-intuitivo, uma vez que seria de imaginar que uma pessoa rica, ao já ter mais do que suficiente para si, se preocuparia mais com as necessidades dos outros, enquanto que por outro lado, ter poucos recursos levaria ao egoísmo. No entanto, o que parece acontecer, é que a riqueza e abundância material trazem um sentido de autonomia e independência dos outros, bem como um sentido de superioridade face aos que menos têm. Ou seja, quanto menos temos que depender dos outros, mais ausentes estamos da compreensão de que vivemos numa teia de interdependência que nos liga a todos os outros seres. Ser muito rico leva-nos a viver numa bolha, de forma muito auto-centrada, desconectados das outras várias realidades. Este tipo de vivência está longe de ser propicio ao desenvolvimento de sabedoria e compaixão.

Ao invés, é nos meios em que não há tanta afluência material que as redes de entre-ajuda e cooperação são mais fortes.

Talvez seja daqui que vem aquele velho ditado, que diz que “é mais fácil passar um camelo no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

 

No meio está a virtude

O que muitos sábios da humanidade já várias vezes referiram, é que a virtude quase sempre se encontra nos equilíbrios. Vivermos num ambiente em que quase não existem escolhas, como o caso de contextos de pobreza extrema, doença extrema, de escravidão, ou de encarceramento, torna tão estéril a possibilidade de encontrar paz e contentamento, quanto um ambiente em que quase todas as escolhas são possíveis, ou as posses materiais muito elevadas.

Haverá algures um equilíbrio no que toca a escolhas ao nosso alcance, e no que toca à quantidade de posses materiais, que será mais propicio a focarmo-nos no essencial. De igual forma acredito num equilíbrio entre contentarmo-nos com o que temos, onde estamos e com quem estamos, ao mesmo tempo que não perdemos de vista aspirações e sonhos significativos e conectados com as nossas necessidades mais autenticas. Aproveito para referir que estas necessidades mais autenticas não podem ser atendidas apenas através de posses materiais. Está bom de ver que estes equilíbrios de que aqui falo, não são o que a nossa cultura dominante exibe na sua montra, ou nos impele a alcançar.

 

Transcender os nossos condicionamentos

Toda a nossa biologia e forma como evoluímos nos empurra para esta dinâmica básica de ir atrás do prazer e fugir ao desprazer. Muitas vezes a própria fuga ao desprazer é conseguida através da busca de prazer. É um jogo no qual ficamos reféns do desejo, e como já terá reparado, os desejos provêm de uma fonte que nunca seca.

Fazendo uso exclusivo deste repertório, somos joguetes neste sistema de hiperprodução e hiperconsumo, empurrados de um lado para o outro, sem possibilidade de encontrar paz. Por um lado inventam-nos a cada momento mil e um desejos, por outro, sofremos pelas profundas desigualdades sociais inerentes a este modelo. A busca do prazer através do ter perpetua e prende-nos na nossa versão mais primária.

Como podemos então encontrar alguma paz e contentamento? A proposta de vários mestres da antiguidade (Buda, Lao Tsé, Aristóteles, Jesus Cristo, etc) nos quais me revejo, é a de transcendermos o nosso condicionamento mais básico e aprendermos a relacionar-nos com o prazer de forma sábia. Passa por aprender a ser mais, em vez de ter mais. Passa por reconhecer quais os tipos de prazer que não nos aprisionam no sofrimento. Passa por um processo de auto-conhecimento profundo, e de entendimento do que de verdade é importante para nós. Passa por treinar o reconhecimento da saciedade e abundância nas coisas tal como estão, e mais ainda, ensaiarmos a gratidão por tanto quanto já temos.

 

A gratidão desbloqueia a abundância da vida. Ela torna o que temos em suficiente, e mais. Ela torna a negação em aceitação, o caos em ordem, a confusão em claridade. Ela pode transformar uma refeição em um banquete, uma casa em um lar, um estranho em um amigo. A gratidão dá sentido ao nosso passado, traz paz para o hoje, e cria uma visão para o amanhã.”, Melody Beattie

 

 

Texto escrito em Dezembro de 2020

Filipe Raposo

Imagem: Steve Cutts, extraído de www.stevecutts.com

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