Perdoando – Parte II

25 de Agosto, 2018

Errar é humano; perdoar, divino.” Alexander Pope

“Foi perguntado a um Santo Sufi o que é perdão. Ele disse: É a fragrância que sai das flores quando são esmagadas.”, Rumi

 

Perdoarmo-nos a nós mesmos

Parece-me que quando infligimos uma agressão a outra pessoa, há um movimento de sentido contrário que nos atinge com semelhante intensidade, ainda que, por vezes, não nos demos conta. O nosso inconsciente guarda uma espécie de cemitério, resultado dos momentos em que perdemos contacto com a nossa humanidade. Ainda que fora da nossa consciência, o resultado destes momentos continua a fazer-se sentir em nós, como um luto que grita para ser chorado.

Urge perdoar-se a si mesmo se se quer caminhar em direção à integridade e à abertura à vida – por vezes a tarefa mais difícil a que um ser humano se pode propor.

Como dizia o Padre Tolentino Mendonça: “A unidade interior é um trabalho imenso. Parece-se com o manto que Penélope tecia durante o dia e desfazia durante a noite, na sua espera quase sem esperança. Mas não podemos desistir de construir essa unidade. Só aquilo que amamos com o extremo do amor não nos será tirado.”.

Ainda que nos seja penoso, é importante conhecer em nós os recantos menos iluminados onde a ignorância, o ódio e a mesquinhez ganharam terreno, e se instalaram durante o cansado baixar da nossa guarda.

Apesar da correria da vida, e das mil e uma estratégias de fuga e distração, aqui e ali vão emergindo sinais da tempestade que se abate no nosso intimo. Na pior das hipóteses o confronto connosco mesmos vem com o ultimo suspiro, e, para muitos, o que fica ao olhar para trás, é uma longa sucessão de desastres não reconhecidos e sem possibilidade de redenção. O desejável é que muito antes disso, possamos ir reconhecendo e assumindo onde e quando ficámos aquém do que o outro merecia, ou os momentos em que falhámos para connosco mesmos, assumindo que boa quota parte do que nos aflige é da nossa autoria, perdoarmo-nos, e se for caso disso tentar a reparação do dano.

 

Reparação do dano

Agir no sentido de reparar um erro que magoou alguém é um gesto muito difícil, mas também pode ser uma oportunidade de crescimento. Este gesto pode ser curador para ambas as partes (ofensor e ofendido), e, por vezes, poderá criar uma oportunidade de encerrar processos, fazer lutos e andar para a frente com a vida. Contudo, há que estar preparado para ser recebido pela raiva e o julgamento do outro. Como dizia no texto anterior: Perdoar uma ofensa requer o seu tempo, e, na verdade, trata-se mais de ir perdoando…

Foi publicado um estudo na European Journal of Social Psychology que aponta para o facto de que, a recusa de alguém pedir desculpas após ter cometido um erro, resulta numa maior autoestima e maior sensação de poder/controlo, comparativamente a quem pede desculpas, pelo menos num curto prazo. Isto talvez ajude a explicar por que é tão difícil darmos “o braço a torcer” e admitirmos as nossas falhas. Estes resultados são ainda muito preliminares e é necessária pesquisa futura. No entanto, será fácil de prever que, apesar da recusa do pedido de desculpas ter um impacto positivo nos objetivos autorreferenciais de quem errou, essa mesma recusa pode ter um impacto negativo considerável nos objetivos relacionais, afectando os vínculos sociais e o lugar de pertença em grupo.

O sentimento de autoestima tem a sua importância, mas, sendo este uma avaliação global do valor próprio, implica que para mantermos uma autoestima elevada, precisaríamos de nos sentir especiais e acima da média a toda a hora. Nesse sentido, a autoestima tende a propiciar indivíduos competitivos e autocentrados, e, sociedades em que impera a lei da selva e um défice de ética. Por seu turno, a auto-compaixão tende a fomentar comportamentos pro-sociais que levam a sociedades mais pacíficas e resilientes. Pode-se dizer que a autoestima nos separa dos outros e isola com a pergunta: “Como é que sou diferente ou melhor que os outros?” enquanto a auto-compaixão nos aproxima dos outros perguntando: “Como é que sou igual aos outros?”

Nesse caso, a auto-compaixão poderá ser a resposta à questão: “Como admitir a falha e pedir desculpa à pessoa ofendida, reconhecendo que ficámos aquém da nossa melhor versão, sem perder a face, ou sem se sentir humilhado?”

O pedido de desculpas não significa que nos estamos a rebaixar, ou a colocar sob a alçada do outro e a acatar o que ele entender daí para a frente. O pedido de desculpas não nos torna menos dignos de estima e respeito, antes pelo contrário. Há uma certa beleza e até um certo poder tranquilo no gesto ético de reconhecimento da própria falha.

Se acontecer sentirmo-nos com baixa autoestima, ou até se formos recebidos com uma mão cheia de pedras, poderá ajudar estar em contacto com a voz interior que nos diz: “Fizeste o que podias. Continuas a ser digno. Estou contigo para o que der e vier”. Isto é sermos o nosso maior aliado assegurando-nos de que não nos vamos abandonar aconteça o que acontecer.

 

Termino este texto com um pensamento: Desde a escala da pequena agressão entre duas pessoas, até a um conflito social envolvendo milhões de pessoas, o perdão pode servir de barreira ao escalar da violência. Começamos por ir perdoando, por nós mesmos, mas o fruto desse amadurecimento é colhido por todo o mundo.

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Agosto 2018

Foto de John Peters em Unsplash

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Miguel Marques

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Filipe Raposo
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Obrigado Miguel

Errar é humano; perdoar, divino.” Alexander Pope

“Foi perguntado a um Santo Sufi o que é perdão. Ele disse: É a fragrância que sai das flores quando são esmagadas.”, Rumi

 

Perdoarmo-nos a nós mesmos

Parece-me que quando infligimos uma agressão a outra pessoa, há um movimento de sentido contrário que nos atinge com semelhante intensidade, ainda que, por vezes, não nos demos conta. O nosso inconsciente guarda uma espécie de cemitério, resultado dos momentos em que perdemos contacto com a nossa humanidade. Ainda que fora da nossa consciência, o resultado destes momentos continua a fazer-se sentir em nós, como um luto que grita para ser chorado.

Urge perdoar-se a si mesmo se se quer caminhar em direção à integridade e à abertura à vida – por vezes a tarefa mais difícil a que um ser humano se pode propor.

Como dizia o Padre Tolentino Mendonça: “A unidade interior é um trabalho imenso. Parece-se com o manto que Penélope tecia durante o dia e desfazia durante a noite, na sua espera quase sem esperança. Mas não podemos desistir de construir essa unidade. Só aquilo que amamos com o extremo do amor não nos será tirado.”.

Ainda que nos seja penoso, é importante conhecer em nós os recantos menos iluminados onde a ignorância, o ódio e a mesquinhez ganharam terreno, e se instalaram durante o cansado baixar da nossa guarda.

Apesar da correria da vida, e das mil e uma estratégias de fuga e distração, aqui e ali vão emergindo sinais da tempestade que se abate no nosso intimo. Na pior das hipóteses o confronto connosco mesmos vem com o ultimo suspiro, e, para muitos, o que fica ao olhar para trás, é uma longa sucessão de desastres não reconhecidos e sem possibilidade de redenção. O desejável é que muito antes disso, possamos ir reconhecendo e assumindo onde e quando ficámos aquém do que o outro merecia, ou os momentos em que falhámos para connosco mesmos, assumindo que boa quota parte do que nos aflige é da nossa autoria, perdoarmo-nos, e se for caso disso tentar a reparação do dano.

 

Reparação do dano

Agir no sentido de reparar um erro que magoou alguém é um gesto muito difícil, mas também pode ser uma oportunidade de crescimento. Este gesto pode ser curador para ambas as partes (ofensor e ofendido), e, por vezes, poderá criar uma oportunidade de encerrar processos, fazer lutos e andar para a frente com a vida. Contudo, há que estar preparado para ser recebido pela raiva e o julgamento do outro. Como dizia no texto anterior: Perdoar uma ofensa requer o seu tempo, e, na verdade, trata-se mais de ir perdoando…

Foi publicado um estudo na European Journal of Social Psychology que aponta para o facto de que, a recusa de alguém pedir desculpas após ter cometido um erro, resulta numa maior autoestima e maior sensação de poder/controlo, comparativamente a quem pede desculpas, pelo menos num curto prazo. Isto talvez ajude a explicar por que é tão difícil darmos “o braço a torcer” e admitirmos as nossas falhas. Estes resultados são ainda muito preliminares e é necessária pesquisa futura. No entanto, será fácil de prever que, apesar da recusa do pedido de desculpas ter um impacto positivo nos objetivos autorreferenciais de quem errou, essa mesma recusa pode ter um impacto negativo considerável nos objetivos relacionais, afectando os vínculos sociais e o lugar de pertença em grupo.

O sentimento de autoestima tem a sua importância, mas, sendo este uma avaliação global do valor próprio, implica que para mantermos uma autoestima elevada, precisaríamos de nos sentir especiais e acima da média a toda a hora. Nesse sentido, a autoestima tende a propiciar indivíduos competitivos e autocentrados, e, sociedades em que impera a lei da selva e um défice de ética. Por seu turno, a auto-compaixão tende a fomentar comportamentos pro-sociais que levam a sociedades mais pacíficas e resilientes. Pode-se dizer que a autoestima nos separa dos outros e isola com a pergunta: “Como é que sou diferente ou melhor que os outros?” enquanto a auto-compaixão nos aproxima dos outros perguntando: “Como é que sou igual aos outros?”

Nesse caso, a auto-compaixão poderá ser a resposta à questão: “Como admitir a falha e pedir desculpa à pessoa ofendida, reconhecendo que ficámos aquém da nossa melhor versão, sem perder a face, ou sem se sentir humilhado?”

O pedido de desculpas não significa que nos estamos a rebaixar, ou a colocar sob a alçada do outro e a acatar o que ele entender daí para a frente. O pedido de desculpas não nos torna menos dignos de estima e respeito, antes pelo contrário. Há uma certa beleza e até um certo poder tranquilo no gesto ético de reconhecimento da própria falha.

Se acontecer sentirmo-nos com baixa autoestima, ou até se formos recebidos com uma mão cheia de pedras, poderá ajudar estar em contacto com a voz interior que nos diz: “Fizeste o que podias. Continuas a ser digno. Estou contigo para o que der e vier”. Isto é sermos o nosso maior aliado assegurando-nos de que não nos vamos abandonar aconteça o que acontecer.

 

Termino este texto com um pensamento: Desde a escala da pequena agressão entre duas pessoas, até a um conflito social envolvendo milhões de pessoas, o perdão pode servir de barreira ao escalar da violência. Começamos por ir perdoando, por nós mesmos, mas o fruto desse amadurecimento é colhido por todo o mundo.

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Agosto 2018

Foto de John Peters em Unsplash

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Miguel Marques
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