Perdoando – Parte I

25 de Julho, 2018

“Ódio é uma pedra em brasa, que apertamos na nossa mão, enquanto esperamos pela oportunidade de a atirar a quem nos ofendeu.”, Desconhecido

“A raiva é um veneno que bebemos esperando que os outros morram.”, William Shakespeare

 

Sempre me perguntei como é que Nelson Mandela foi capaz de escolher o caminho da paz e reconciliação, mesmo depois de o privarem de décadas de liberdade. Ou como o Dalai Lama consegue manter um sorriso compassivo, quando lhe perguntam o que sente, face à ocupação chinesa no Tibete.

A elevação moral destas figuras fez-me lembrar uma citação que ouvi algures, do poeta Norte-Americano – Henry Longfellow, e que diz algo assim: “Se pudéssemos ler a história secreta dos nossos inimigos, encontraríamos na vida de todo o homem, suficiente sofrimento e pesar para desarmar toda a hostilidade.

Acho que a resposta a estas questões tem muito que ver com perdão. Esse processo de crescimento espiritual da família do amor e da compaixão, que é movido pela esperança de liberdade, e que nos poderá levar quem sabe a um porto, onde poderemos sentir-nos mais inteiros e em paz.

Perdoar uma ofensa requer o seu tempo, e, na verdade, trata-se mais de ir perdoando, pois como outras habilidades do coração, requer uma maturação. Relembramo-nos de que este processo de pacificação está em curso, quando notamos que já podemos tocar na cicatriz, do que foi outrora uma ferida aberta.

 

Perdoar é um gesto de redenção e de fé no Amor, que fazemos por nós em primeiro lugar

Perdoar passa por um encontro honesto com a realidade, com as coisas tal como são. Não adianta tentar enterrar a verdade, pois esta virá sempre à tona, relembrando-nos da agressão que de que fomos vitimas, ou que cometemos. É preciso primeiro reconhecer e aceitar o facto de que houve uma agressão (de outros, ou nossa) que causou (e causa) sofrimento, o que é diferente de aceitar a agressão. Precisamos de legitimar o sofrimento, e, começar a perceber que há uma ferida.

É preciso coragem para revisitar o lugar onde os sonhos fracassaram, o lugar escuro onde o outro causou o nosso desamparo e ruína, ou onde fomos os autores de uma ofensa que desrespeitou alguém.

É preciso ter a coragem de deixar cair os “ses”, e abandonar a esperança de um passado melhor: Se eu tivesse tido força… Se me tivessem avisado… Se eu tivesse sido mais cuidadoso… Se me tivessem dado o que merecia… Se o mundo fosse mais justo…

Este gesto de coragem é uma escolha sincera a favor da liberdade, e, esta escolha, não depende da permissão ou aceitação do outro (o outro poderá até já nem estar vivo), tal como não depende de concordarmos com as suas acções, ou compreendermos as suas motivações.

Fazer as pazes com este momento aqui e agora pressupõe aceitar todos os momentos que o antecederam.

Quando podemos por momentos olhar para a nossa mão, e, reconhecemos que ainda estamos a segurar a pedra em brasa que gostaríamos de atirar a quem nos ofendeu, o coração chora por si mesmo em compaixão, e já não há mais porque continuar a manter a ferida aberta.

Aí, a vitima tem a possibilidade de se erguer, para dar lugar ao herói, ao autor e responsável pela própria felicidade, pelo próprio destino. Nesse momento torna-se possível pararmos de nos agredir pela nossa falha ou pela falha do outro, e, começarmos a cuidar da ferida que estava aberta, até um dia voltarmos a abrir as portadas do coração. Perdoar reabre a porta da confiança, da entrega e da gratidão por tanto que temos a apreciar de maravilhoso na vida.

 

O que fica depois do perdão?

O ressentimento que seguramos, sem nos darmos conta, vai azedando e contaminando todas as dimensões da nossa vida. Como um miasma estagnado que tinge e interfere nas nossas escolhas, e, na forma como vemos o mundo.

Na medida em que for possível ir perdoando, assim vamos deixando de estar reféns das atitudes destrutivas de terceiros. Aliviamo-nos ao devolver a carga de responsabilidade que é somente do outro.

Por vezes perdoar, abre espaço para que sintamos compaixão pela fraqueza de quem nos falhou, ou poderá até fazer despontar a intenção de que essa pessoa seja feliz. Nem sempre isto é possível, por vezes as ofensas são tão terríveis que nos marcam profundamente, e, uma coisa é perdoar, outra é esquecer. Muitas vezes deixa de ser realista continuar a ter uma ligação com a outra pessoa, pois a sua presença é como um espinho constantemente cravado na carne. Outras vezes ainda, apesar do nosso perdão, as acções do outro continuam a desrespeitar as nossas necessidades. Aí a opção mais indicada, passará por defender os limites do que é vital para nós, dizendo assertivamente “NÃO”, ou encontrando uma distância de segurança entre nós e a outra pessoa, afastando-nos cordialmente de quem nos desrespeita. Perdoar não significa voltar a “pôr-se a jeito” para ser magoado novamente.

 

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Julho de 2018

Foto de Tony Rojas em Unsplash

 

Link sugerido:

HUMAN – clip #13: Love from the most unlikely place

https://youtu.be/afvN6se3Yug

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“Ódio é uma pedra em brasa, que apertamos na nossa mão, enquanto esperamos pela oportunidade de a atirar a quem nos ofendeu.”, Desconhecido

“A raiva é um veneno que bebemos esperando que os outros morram.”, William Shakespeare

 

Sempre me perguntei como é que Nelson Mandela foi capaz de escolher o caminho da paz e reconciliação, mesmo depois de o privarem de décadas de liberdade. Ou como o Dalai Lama consegue manter um sorriso compassivo, quando lhe perguntam o que sente, face à ocupação chinesa no Tibete.

A elevação moral destas figuras fez-me lembrar uma citação que ouvi algures, do poeta Norte-Americano – Henry Longfellow, e que diz algo assim: “Se pudéssemos ler a história secreta dos nossos inimigos, encontraríamos na vida de todo o homem, suficiente sofrimento e pesar para desarmar toda a hostilidade.

Acho que a resposta a estas questões tem muito que ver com perdão. Esse processo de crescimento espiritual da família do amor e da compaixão, que é movido pela esperança de liberdade, e que nos poderá levar quem sabe a um porto, onde poderemos sentir-nos mais inteiros e em paz.

Perdoar uma ofensa requer o seu tempo, e, na verdade, trata-se mais de ir perdoando, pois como outras habilidades do coração, requer uma maturação. Relembramo-nos de que este processo de pacificação está em curso, quando notamos que já podemos tocar na cicatriz, do que foi outrora uma ferida aberta.

 

Perdoar é um gesto de redenção e de fé no Amor, que fazemos por nós em primeiro lugar

Perdoar passa por um encontro honesto com a realidade, com as coisas tal como são. Não adianta tentar enterrar a verdade, pois esta virá sempre à tona, relembrando-nos da agressão que de que fomos vitimas, ou que cometemos. É preciso primeiro reconhecer e aceitar o facto de que houve uma agressão (de outros, ou nossa) que causou (e causa) sofrimento, o que é diferente de aceitar a agressão. Precisamos de legitimar o sofrimento, e, começar a perceber que há uma ferida.

É preciso coragem para revisitar o lugar onde os sonhos fracassaram, o lugar escuro onde o outro causou o nosso desamparo e ruína, ou onde fomos os autores de uma ofensa que desrespeitou alguém.

É preciso ter a coragem de deixar cair os “ses”, e abandonar a esperança de um passado melhor: Se eu tivesse tido força… Se me tivessem avisado… Se eu tivesse sido mais cuidadoso… Se me tivessem dado o que merecia… Se o mundo fosse mais justo…

Este gesto de coragem é uma escolha sincera a favor da liberdade, e, esta escolha, não depende da permissão ou aceitação do outro (o outro poderá até já nem estar vivo), tal como não depende de concordarmos com as suas acções, ou compreendermos as suas motivações.

Fazer as pazes com este momento aqui e agora pressupõe aceitar todos os momentos que o antecederam.

Quando podemos por momentos olhar para a nossa mão, e, reconhecemos que ainda estamos a segurar a pedra em brasa que gostaríamos de atirar a quem nos ofendeu, o coração chora por si mesmo em compaixão, e já não há mais porque continuar a manter a ferida aberta.

Aí, a vitima tem a possibilidade de se erguer, para dar lugar ao herói, ao autor e responsável pela própria felicidade, pelo próprio destino. Nesse momento torna-se possível pararmos de nos agredir pela nossa falha ou pela falha do outro, e, começarmos a cuidar da ferida que estava aberta, até um dia voltarmos a abrir as portadas do coração. Perdoar reabre a porta da confiança, da entrega e da gratidão por tanto que temos a apreciar de maravilhoso na vida.

 

O que fica depois do perdão?

O ressentimento que seguramos, sem nos darmos conta, vai azedando e contaminando todas as dimensões da nossa vida. Como um miasma estagnado que tinge e interfere nas nossas escolhas, e, na forma como vemos o mundo.

Na medida em que for possível ir perdoando, assim vamos deixando de estar reféns das atitudes destrutivas de terceiros. Aliviamo-nos ao devolver a carga de responsabilidade que é somente do outro.

Por vezes perdoar, abre espaço para que sintamos compaixão pela fraqueza de quem nos falhou, ou poderá até fazer despontar a intenção de que essa pessoa seja feliz. Nem sempre isto é possível, por vezes as ofensas são tão terríveis que nos marcam profundamente, e, uma coisa é perdoar, outra é esquecer. Muitas vezes deixa de ser realista continuar a ter uma ligação com a outra pessoa, pois a sua presença é como um espinho constantemente cravado na carne. Outras vezes ainda, apesar do nosso perdão, as acções do outro continuam a desrespeitar as nossas necessidades. Aí a opção mais indicada, passará por defender os limites do que é vital para nós, dizendo assertivamente “NÃO”, ou encontrando uma distância de segurança entre nós e a outra pessoa, afastando-nos cordialmente de quem nos desrespeita. Perdoar não significa voltar a “pôr-se a jeito” para ser magoado novamente.

 

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Julho de 2018

Foto de Tony Rojas em Unsplash

 

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https://youtu.be/afvN6se3Yug

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