O Espaço da Compaixão – Parte II

5 de Outubro, 2016

 

As tradições contemplativas e algumas religiões afirmaram desde sempre que a compaixão é natural no ser humano e fundamental para a nossa vivência e sobrevivência. As ciências estão a começar a encontrar-se com o mundo das tradições espirituais e contemplativas no mesmo plano, no que toca ao estudo da Compaixão. Nas ultimas duas décadas o número de estudos científicos sobre o tema tem disparado, o que mostra que áreas como a meditação, a consciência, ou a compaixão, onde é difícil quantificar a experiência subjectiva, começam a deixar de ser um tabu.

Os inúmeros estudos científicos publicados, renovam-me a convicção de que a compaixão é um recurso essencial: à nossa auto-regulação, bem-estar e saúde; a podermos cuidar dos outros sem nos esgotarmos emocionalmente; ao respeito pela nossa humanidade comum; a uma sociedade global pacífica e justa; a um profundo respeito pelo nosso Planeta; e em última análise, a cumprirmos todo o potencial humano e a esperança de milhares de gerações passadas e presentes.

 

A pesquisa científica revela como somos um sistema complexo em evolução, longe de ser um produto acabado. No nosso cérebro, estruturas neuro-fisiológicas mais antigas com mecanismos mais arcaicos, convivem com outras mais recentes e de mecanismos mais sofisticados. Temos em nós tanto o potencial para a agressividade, como a capacidade de amor e compaixão, dependendo de condições muito relacionadas com a percepção de segurança. A ciência está agora a juntar-se a um diálogo que começou nas tradições espirituais há vários milénios. É possível criar as condições para transcendermos os impulsos mais destrutivos, cultivando as qualidades maiores do ser humano, e, daí, guiar conscientemente a nossa evolução.

A visão científica ocidental começou por olhar com grande desconfiança para as supostas qualidades altruístas do ser humano, considerando que somos naturalmente egoístas e que as nossas estratégias visam unicamente a nossa sobrevivência, o nosso bem-estar e a acumulação de recursos para nós mesmos. Os actos de suposto altruísmo seriam apenas estratégias encobertas de conseguir o sucesso do propósito egoísta. No entanto esta visão é incorrecta, o comportamento egoísta nem sempre leva aos melhores resultados. Uma observação mais assertiva parece indicar que a compaixão e o altruísmo levam a melhores resultados no longo prazo. São os indivíduos e as sociedades que praticam a cooperação e a compaixão que levam vantagem, relativamente a indivíduos e sociedades que entram numa escalada de agressão e violência.

Darwin tornou-se bastante conhecido por apresentar ao Mundo a Teoria da Evolução que explica a diversidade das espécies, mas o que menos gente sabe, é que ele escreveu também acerca dos vínculos emocionais nos humanos e das similaridades entre humanos e animais. No livro “The Descent of Man” ele argumenta que o instinto mais poderoso do homem em termos evolutivos é a cooperação e compaixão e não a competição. O facto de que as nossas crias nascem prematuras e tão vulneráveis tornou-nos uma espécie que evoluiu para o cuidado maternal e os laços afectivos.

Darwin disse que: “A semente da compaixão está na maternagem e a compaixão global é o nosso foco nos outros com um olhar de Mãe…”

 

A nossa espécie encontra-se numa encruzilhada existencial. A evolução biológica trouxe-nos até um ponto em que temos num dos pratos da balança: dualidade, ignorância, ódio e ganância, e, no outro: altruísmo, sabedoria, amor e compaixão. Ambos os pratos reúnem aspectos profundamente enraizados no nosso ser. A balança irá pender para o lado que mais cultivarmos. É motivo de esperança, saber que é possível criar as condições para que a compaixão floresça, e, saber que temos uma apetência forte para nos inclinarmos para a elevação moral e altruísmo: presenciar um pequeno gesto de bondade; ou contemplar a fragilidade da vida; ou reconhecer semelhanças num estranho, são o suficiente para tranquilizarmos o “réptil” que há em nós, e abrir o coração, olhando cada expressão de vida com o olhar de maternagem. No entanto, no mundo violento e desigual em que vivemos, isto não chega. Cada um de nós deve fazer a sua parte para cultivar a sua flor de lótus no meio de um oceano de fogo, e, assim servir de oásis aos companheiros desta jornada.

 

Citando o Prof. Paulo Borges: “… a rápida evolução científica e tecnológica não foi acompanhada por uma igual evolução ética e espiritual, fazendo com que indivíduos, grupos e nações sujeitos aos mais primitivos instintos e emoções detenham sofisticados mecanismos de poder, exploração e destruição militar e económica. Temos uma civilização global, em termos económico-tecnológicos, mas não uma consciência ética global.

A forma de cultivarmos uma consciência ética e fraterna, expressão de um cérebro integrado, parte muito de um esforço individual de treinar a mente e aquietar o medo. É o medo que nos sussurra e isola do mundo. É o medo que nos fala ao ouvido num tom metálico de autocritica, dizendo que alguma coisa vai correr mal, que há algo de errado connosco, que não chegamos, que nos vamos magoar, que vamos perder as coisas de que gostamos, que vamos morrer…

 

No Génesis 1:28 está escrito: «Deus os abençoou e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra”». Esta passagem do Antigo Testamento foi pedra de alicerce da visão antropocêntrica que tem instrumentalizado as restantes espécies e ecossistemas no sentido de servir as pretensões humanas. No entanto, alguns autores argumentam que no texto original, as palavras “subjuguem” e “dominem” resultaram de um erro de tradução, e, que na realidade, a mensagem apontaria mais para algo como: “cuidem”. O propósito do homem não é dominar a natureza e tomá-la como exterior e hostil, mas algo de que faz parte, algo a ser respeitado e cuidado. O homem não é o senhor do mundo, mas poderá ser o seu cuidador. A capacidade de autoconsciência, de amor, de compaixão e de iluminação religam-nos ao todo de onde nunca estivemos separados. Este lugar acarreta um sentido de responsabilidade – o de respeitarmos tudo o que é expressão singular de vida.

Acredito ser esse o desígnio maior da espécie humana, e, a compaixão, o espaço onde o sonho se pode cumprir.

 

Filipe Raposo

Escrito em Outubro de 2016

Foto gratuita de Pexels

 

 

Iniciativas criadas no âmbito da Compaixão:

Carta pela Compaixão (redigida pela Professora Karen Armstrong)

Carta Universal pela Compaixão (redigida pelo Professor Paulo Borges)

 

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Os inúmeros estudos científicos publicados, renovam-me a convicção de que a compaixão é um recurso essencial: à nossa auto-regulação, bem-estar e saúde; a podermos cuidar dos outros sem nos esgotarmos emocionalmente; ao respeito pela nossa humanidade comum; a uma sociedade global pacífica e justa; a um profundo respeito pelo nosso Planeta; e em última análise, a cumprirmos todo o potencial humano e a esperança de milhares de gerações passadas e presentes.

 

A pesquisa científica revela como somos um sistema complexo em evolução, longe de ser um produto acabado. No nosso cérebro, estruturas neuro-fisiológicas mais antigas com mecanismos mais arcaicos, convivem com outras mais recentes e de mecanismos mais sofisticados. Temos em nós tanto o potencial para a agressividade, como a capacidade de amor e compaixão, dependendo de condições muito relacionadas com a percepção de segurança. A ciência está agora a juntar-se a um diálogo que começou nas tradições espirituais há vários milénios. É possível criar as condições para transcendermos os impulsos mais destrutivos, cultivando as qualidades maiores do ser humano, e, daí, guiar conscientemente a nossa evolução.

A visão científica ocidental começou por olhar com grande desconfiança para as supostas qualidades altruístas do ser humano, considerando que somos naturalmente egoístas e que as nossas estratégias visam unicamente a nossa sobrevivência, o nosso bem-estar e a acumulação de recursos para nós mesmos. Os actos de suposto altruísmo seriam apenas estratégias encobertas de conseguir o sucesso do propósito egoísta. No entanto esta visão é incorrecta, o comportamento egoísta nem sempre leva aos melhores resultados. Uma observação mais assertiva parece indicar que a compaixão e o altruísmo levam a melhores resultados no longo prazo. São os indivíduos e as sociedades que praticam a cooperação e a compaixão que levam vantagem, relativamente a indivíduos e sociedades que entram numa escalada de agressão e violência.

Darwin tornou-se bastante conhecido por apresentar ao Mundo a Teoria da Evolução que explica a diversidade das espécies, mas o que menos gente sabe, é que ele escreveu também acerca dos vínculos emocionais nos humanos e das similaridades entre humanos e animais. No livro “The Descent of Man” ele argumenta que o instinto mais poderoso do homem em termos evolutivos é a cooperação e compaixão e não a competição. O facto de que as nossas crias nascem prematuras e tão vulneráveis tornou-nos uma espécie que evoluiu para o cuidado maternal e os laços afectivos.

Darwin disse que: “A semente da compaixão está na maternagem e a compaixão global é o nosso foco nos outros com um olhar de Mãe…”

 

A nossa espécie encontra-se numa encruzilhada existencial. A evolução biológica trouxe-nos até um ponto em que temos num dos pratos da balança: dualidade, ignorância, ódio e ganância, e, no outro: altruísmo, sabedoria, amor e compaixão. Ambos os pratos reúnem aspectos profundamente enraizados no nosso ser. A balança irá pender para o lado que mais cultivarmos. É motivo de esperança, saber que é possível criar as condições para que a compaixão floresça, e, saber que temos uma apetência forte para nos inclinarmos para a elevação moral e altruísmo: presenciar um pequeno gesto de bondade; ou contemplar a fragilidade da vida; ou reconhecer semelhanças num estranho, são o suficiente para tranquilizarmos o “réptil” que há em nós, e abrir o coração, olhando cada expressão de vida com o olhar de maternagem. No entanto, no mundo violento e desigual em que vivemos, isto não chega. Cada um de nós deve fazer a sua parte para cultivar a sua flor de lótus no meio de um oceano de fogo, e, assim servir de oásis aos companheiros desta jornada.

 

Citando o Prof. Paulo Borges: “… a rápida evolução científica e tecnológica não foi acompanhada por uma igual evolução ética e espiritual, fazendo com que indivíduos, grupos e nações sujeitos aos mais primitivos instintos e emoções detenham sofisticados mecanismos de poder, exploração e destruição militar e económica. Temos uma civilização global, em termos económico-tecnológicos, mas não uma consciência ética global.

A forma de cultivarmos uma consciência ética e fraterna, expressão de um cérebro integrado, parte muito de um esforço individual de treinar a mente e aquietar o medo. É o medo que nos sussurra e isola do mundo. É o medo que nos fala ao ouvido num tom metálico de autocritica, dizendo que alguma coisa vai correr mal, que há algo de errado connosco, que não chegamos, que nos vamos magoar, que vamos perder as coisas de que gostamos, que vamos morrer…

 

No Génesis 1:28 está escrito: «Deus os abençoou e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra”». Esta passagem do Antigo Testamento foi pedra de alicerce da visão antropocêntrica que tem instrumentalizado as restantes espécies e ecossistemas no sentido de servir as pretensões humanas. No entanto, alguns autores argumentam que no texto original, as palavras “subjuguem” e “dominem” resultaram de um erro de tradução, e, que na realidade, a mensagem apontaria mais para algo como: “cuidem”. O propósito do homem não é dominar a natureza e tomá-la como exterior e hostil, mas algo de que faz parte, algo a ser respeitado e cuidado. O homem não é o senhor do mundo, mas poderá ser o seu cuidador. A capacidade de autoconsciência, de amor, de compaixão e de iluminação religam-nos ao todo de onde nunca estivemos separados. Este lugar acarreta um sentido de responsabilidade – o de respeitarmos tudo o que é expressão singular de vida.

Acredito ser esse o desígnio maior da espécie humana, e, a compaixão, o espaço onde o sonho se pode cumprir.

 

Filipe Raposo

Escrito em Outubro de 2016

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Carta pela Compaixão (redigida pela Professora Karen Armstrong)

Carta Universal pela Compaixão (redigida pelo Professor Paulo Borges)

 

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