Morrer Antes de Morrer

1 de Fevereiro, 2016

 

Sempre me questionei acerca do significado do olhar da outra pessoa. Quando comecei a viajar, por estar mais atento, reparei como ao longo da nossa vida cruzamos o olhar com milhares de pessoas. Milhares de encontros em que ora nos olham apenas por fracções de segundo, ora, se tivermos sorte, nos olham intensamente por longos minutos. Raramente um olhar nos deixa completamente indiferentes. Naquele local mágico, bem ao fundo das janelas da alma, naquele céu imenso de estrelas onde toda a vida se reconhece, há quase sempre o reavivar de uma conexão por mais efémera que seja.

Na perspectiva budista – na qual se concebe uma continuidade de consciência após a morte do corpo físico, num Universo infinito, existente desde tempos sem início e sem fim – todos os seres ainda presos à roda da ilusão, ou Samsara, já reencarnaram infinitas vezes. O que resulta desta possibilidade, é que cada ser já se cruzou infinitas vezes com todos os outros seres. Todas as pessoas com quem nos cruzámos nesta vida, já cruzaram o nosso caminho noutras existências vezes sem conta como nossos amantes, pais, mães, filhos, amigos, inimigos, animais de estimação, animais que matámos para comer, animais que nos comeram, e por aí adiante.

 

Independentemente desta perspectiva oriental nos fazer sentido ou não, há algo aqui com potencial para nos ajudar a lidar com o medo da morte. E já agora, para nos ajudar a lidar com o sofrimento de modo geral. Trata-se de ver o sofrimento e a morte não como algo pessoal, mas como experiência partilhada por toda a vida em geral, e, de forma mais ou menos consciente por toda a humanidade. Cada vez que um pai perde um filho, esse pai é dilacerado pela dor de todos os pais que alguma vez perderam um filho. Cada vez que alguém perde o seu amado, há nesse coração o eco intemporal de todos os amores perdidos. Cada vez que alguém desespera confrontado com a morte, esse alguém desespera com a mesma dor de todas as pessoas que partiram deste mundo. Como li algures: “Cada um de nós partilha a dor de carregar a cruz do redentor nos silêncios do seu desespero individual…”. O nosso coração partido é apenas um minúsculo vidrinho num vitral bem mais amplo e colorido.

Há uma história do tempo do Buda Gautama, que ilustra este ensinamento. Chama-se a parábola da semente de mostarda. Muito resumidamente, a parábola conta a história de uma mãe, que ao perder o seu único filho fica completamente desesperada. Anda de porta em porta com o filho morto ao colo, em busca de um remédio que o possa salvar. As pessoas tentam convencê-la de que o seu filho está morto e de que não há nada a fazer, mas ela, que está de cabeça perdida, não se convence. É então que alguém lhe aponta o caminho para falar com o Buda. Ao falar com o Iluminado, este recomenda à mulher que lhe traga uma semente de mostarda para poder curar a criança, mas, com uma condição: A semente de mostarda deve vir de uma casa, onde ninguém jamais tenha conhecido a morte. A mulher entusiasmada colocou-se de imediato ao caminho. Bateu à primeira porta, à segunda, à terceira, mas invariavelmente a história de perda repetia-se. Em todas as casas já tinha morrido um filho, ou um pai, ou um avô, ou um amigo, etc. A mulher regressou desgostosa para junto do Iluminado, mas com a compreensão clara de que a sua dor era partilhada por todos os que habitam este mundo. Não há forma de lhe escapar, mas a verdade da perda entendida do modo correcto, pode levar a que “…o sofrimento que aflige todos os corações pese menos do que se concentrado num só…”. Este é o bálsamo que ajuda a sarar a ferida. E assim aquela mulher pôde enterrar o seu filho e chorar a sua morte.

 

Morrer antes de morrer é um paradoxo proposto por várias tradições espirituais. Tem que ver com a forma como encaramos a morte, e, como demonstramos abertura para acolher a vida em toda a sua complexidade. Tem que ver com uma entrega voluntária, um acto de abrir mão de expectativas, planos e certezas acerca da realidade, acerca do que somos, acerca do que achamos que temos que ser. É uma rendição incondicional ao facto de que não existe terreno firme, nem guião para a vida, só o coração como bússola. Não é uma atitude passiva e derrotista, mas um olhar confiante sobre o desenrolar do caminho, não soprando contra o vento, antes bebendo cada momento pelo milagre que é. Um olhar que compreende a transitoriedade desta passagem sem se lhe opor, estando preparado para morrer a cada instante e assim vivendo cada instante com uma intensidade serena. Ser o bambu cujas raízes se agarram com força, mas erguer os braços e vergá-los aos ventos mais fortes, mediando terra e céu. Saborear o doce, e o amargo, e todos os sabores do cardápio da vida, com curiosidade, com abertura. Compreender que o amargo pode ser o doce provado com palato ainda não refinado. E se o amargo nos fizer revirar o estômago e contorcer de dor, talvez daí venha o espaço que faltava para podermos apreciar novas iguarias.

Amanhã ou a próxima vida, qual virá primeiro?” É uma frase que os Tibetanos costumam usar em jeito de piada, mas que aponta para algo por demais evidente. A morte pode vir a qualquer momento, e, aquele que o esqueça, corre o risco de não tentar ser tudo aquilo que pode ser. Mark Twain apontava precisamente para esta descoberta: “Os dois dias mais importantes da tua vida: o dia em que nasceste e o dia em que descobriste porquê.”.

A senda de encontrarmos a nossa essência pode ser uma história linda de amor, se assim o quisermos, mas só através da coragem e da sabedoria, conseguiremos dizer não aos atalhos da vida. Nunca é demais relembrar, que somos seres que se engrandecem e nutrem na qualidade e não na quantidade, na verdade e não no logro.

 

Experimentei algumas vezes uma prática de meditação Tibetana de contemplação da morte. Nesta prática em concreto, medita-se acerca de factos incontornáveis da realidade, como:

Todas as pessoas que estavam vivas há 120 anos atrás já deixaram de existir; Todas as pessoas que conhecemos, incluindo nós mesmos, estarão mortas daqui a 120 anos; Já passaram por este mundo, milhões e milhões de seres humanos que tal como nós respiraram, amaram, tiveram sonhos e já deixaram de existir.

É interessante ver a forma como mente e corpo reagem, quando confrontados com estes factos. Perante a ideia da não existência, o intelecto rejeita e tenta encontrar uma saída pela lógica. A resposta é um intrincado de teorias e raciocínios circulares, baseados grandemente no conjunto de experiências que já tivemos. A resposta não é uma resposta, mas uma cascata de perguntas e mais perguntas. É um labirinto sem fim. O corpo agita-se e teima em não ficar quieto, ou, vai para o extremo oposto e tolda-se num torpor espesso como nevoeiro.

Esta prática leva a uma dessensibilização progressiva do medo e ansiedade da morte, o que traz um contacto mais intenso com a sua polaridade – a vida. Na medida em que aceitamos a “sombra” da vida, assim também a experiência de estar vivo se aprofunda, não havendo nada a excluir. Daí, ocorre um realinhamento natural entre desejos fugazes e propósitos existenciais. Tudo o que é acessório à nossa trajectória ou dela nos desvia, mais facilmente será posto de parte.

 

Do mesmo modo que viemos ao mundo num movimento de agarrar a vida, assim devemos aceitar a ideia de a ir largando gradualmente. É o movimento natural de expansão e contracção de tudo o que existe. O nosso movimento de inspirar e expirar, e, por exemplo, o movimento anual de respiração da Terra, são a mesma coisa, só mudam as escalas. Se observarmos a nossa respiração com sabedoria, temos aqui tudo o que precisamos para compreender vida e morte.

Há uma grande diferença entre renunciar a algo de forma pacífica, e, agarrar cegamente até sufocar o que estamos a agarrar. A diferença mede-se no sofrimento da nossa existência.

Não será que talvez aceitando o milagre da renovação, daí possa vir uma paz mais duradoura? Não será que preparar o terreno para sermos o húmus e não o pesticida que envenena, possa constituir o único legado que vale a pena? Não será que reconhecer a oportunidade das novas gerações virem fazer diferente e melhor do que fizemos, trazendo novas respostas ao mundo, seja o acto derradeiro de compaixão pela espécie humana?

Quando estivermos perto do momento da morte, a paz no coração é a medida para aferir a nobreza de uma vida. Esta trégua conquista-se numa intimidade amorosa com tudo o que vivemos, fazendo sentido da nossa história de alegrias e misérias, perdas e conquistas.

Esta existência nunca foi uma corrida, não há prémios por chegar primeiro ou acumular mais. Vamos todos cruzar a meta que é um buraco de agulha, e nesse buraco, só o fio do Amor passa.

A vida não é um escoadouro onde há que esbracejar teimosamente numa luta heróica, carregando em frente sem saber para onde. A haver luta – que haverá certamente se seguirmos a via do coração – não é com a morte, nem com a vida, mas com tudo o que se lhes oponha. Ou como dizia o Rumi, poeta Persa do séc. XIII: “A nossa tarefa não é buscar o Amor, mas apenas procurar e desfazer todas as barreiras que fomos erguendo no nosso coração para o deter.

Perante a angústia do desconhecido, cabe-nos confiar numa sabedoria por trás de tudo o que existe. O Universo já anda nisto há uns tempos e continuará muito depois de termos cumprido o nosso papel individual. Desconfio que o que realmente somos, esteja algo para lá da nossa compreensão. No entanto, existe em nós a possibilidade de vivenciar um silêncio e uma paz onde intuir a verdade.

 

A vida não é uma resposta, é antes uma eterna pergunta, e, é no silêncio de nós mesmos, ali onde o coração serena, que a pergunta perde o sentido de interrogação.

 

Quem quer que seja que me trouxe aqui, terá de levar-me para casa.”, Rumi

 

 

Filipe Raposo

Escrito em Fevereiro de 2016

Foto de Sammie Vasquez em Unsplash

 

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Na perspectiva budista – na qual se concebe uma continuidade de consciência após a morte do corpo físico, num Universo infinito, existente desde tempos sem início e sem fim – todos os seres ainda presos à roda da ilusão, ou Samsara, já reencarnaram infinitas vezes. O que resulta desta possibilidade, é que cada ser já se cruzou infinitas vezes com todos os outros seres. Todas as pessoas com quem nos cruzámos nesta vida, já cruzaram o nosso caminho noutras existências vezes sem conta como nossos amantes, pais, mães, filhos, amigos, inimigos, animais de estimação, animais que matámos para comer, animais que nos comeram, e por aí adiante.

 

Independentemente desta perspectiva oriental nos fazer sentido ou não, há algo aqui com potencial para nos ajudar a lidar com o medo da morte. E já agora, para nos ajudar a lidar com o sofrimento de modo geral. Trata-se de ver o sofrimento e a morte não como algo pessoal, mas como experiência partilhada por toda a vida em geral, e, de forma mais ou menos consciente por toda a humanidade. Cada vez que um pai perde um filho, esse pai é dilacerado pela dor de todos os pais que alguma vez perderam um filho. Cada vez que alguém perde o seu amado, há nesse coração o eco intemporal de todos os amores perdidos. Cada vez que alguém desespera confrontado com a morte, esse alguém desespera com a mesma dor de todas as pessoas que partiram deste mundo. Como li algures: “Cada um de nós partilha a dor de carregar a cruz do redentor nos silêncios do seu desespero individual…”. O nosso coração partido é apenas um minúsculo vidrinho num vitral bem mais amplo e colorido.

Há uma história do tempo do Buda Gautama, que ilustra este ensinamento. Chama-se a parábola da semente de mostarda. Muito resumidamente, a parábola conta a história de uma mãe, que ao perder o seu único filho fica completamente desesperada. Anda de porta em porta com o filho morto ao colo, em busca de um remédio que o possa salvar. As pessoas tentam convencê-la de que o seu filho está morto e de que não há nada a fazer, mas ela, que está de cabeça perdida, não se convence. É então que alguém lhe aponta o caminho para falar com o Buda. Ao falar com o Iluminado, este recomenda à mulher que lhe traga uma semente de mostarda para poder curar a criança, mas, com uma condição: A semente de mostarda deve vir de uma casa, onde ninguém jamais tenha conhecido a morte. A mulher entusiasmada colocou-se de imediato ao caminho. Bateu à primeira porta, à segunda, à terceira, mas invariavelmente a história de perda repetia-se. Em todas as casas já tinha morrido um filho, ou um pai, ou um avô, ou um amigo, etc. A mulher regressou desgostosa para junto do Iluminado, mas com a compreensão clara de que a sua dor era partilhada por todos os que habitam este mundo. Não há forma de lhe escapar, mas a verdade da perda entendida do modo correcto, pode levar a que “…o sofrimento que aflige todos os corações pese menos do que se concentrado num só…”. Este é o bálsamo que ajuda a sarar a ferida. E assim aquela mulher pôde enterrar o seu filho e chorar a sua morte.

 

Morrer antes de morrer é um paradoxo proposto por várias tradições espirituais. Tem que ver com a forma como encaramos a morte, e, como demonstramos abertura para acolher a vida em toda a sua complexidade. Tem que ver com uma entrega voluntária, um acto de abrir mão de expectativas, planos e certezas acerca da realidade, acerca do que somos, acerca do que achamos que temos que ser. É uma rendição incondicional ao facto de que não existe terreno firme, nem guião para a vida, só o coração como bússola. Não é uma atitude passiva e derrotista, mas um olhar confiante sobre o desenrolar do caminho, não soprando contra o vento, antes bebendo cada momento pelo milagre que é. Um olhar que compreende a transitoriedade desta passagem sem se lhe opor, estando preparado para morrer a cada instante e assim vivendo cada instante com uma intensidade serena. Ser o bambu cujas raízes se agarram com força, mas erguer os braços e vergá-los aos ventos mais fortes, mediando terra e céu. Saborear o doce, e o amargo, e todos os sabores do cardápio da vida, com curiosidade, com abertura. Compreender que o amargo pode ser o doce provado com palato ainda não refinado. E se o amargo nos fizer revirar o estômago e contorcer de dor, talvez daí venha o espaço que faltava para podermos apreciar novas iguarias.

Amanhã ou a próxima vida, qual virá primeiro?” É uma frase que os Tibetanos costumam usar em jeito de piada, mas que aponta para algo por demais evidente. A morte pode vir a qualquer momento, e, aquele que o esqueça, corre o risco de não tentar ser tudo aquilo que pode ser. Mark Twain apontava precisamente para esta descoberta: “Os dois dias mais importantes da tua vida: o dia em que nasceste e o dia em que descobriste porquê.”.

A senda de encontrarmos a nossa essência pode ser uma história linda de amor, se assim o quisermos, mas só através da coragem e da sabedoria, conseguiremos dizer não aos atalhos da vida. Nunca é demais relembrar, que somos seres que se engrandecem e nutrem na qualidade e não na quantidade, na verdade e não no logro.

 

Experimentei algumas vezes uma prática de meditação Tibetana de contemplação da morte. Nesta prática em concreto, medita-se acerca de factos incontornáveis da realidade, como:

Todas as pessoas que estavam vivas há 120 anos atrás já deixaram de existir; Todas as pessoas que conhecemos, incluindo nós mesmos, estarão mortas daqui a 120 anos; Já passaram por este mundo, milhões e milhões de seres humanos que tal como nós respiraram, amaram, tiveram sonhos e já deixaram de existir.

É interessante ver a forma como mente e corpo reagem, quando confrontados com estes factos. Perante a ideia da não existência, o intelecto rejeita e tenta encontrar uma saída pela lógica. A resposta é um intrincado de teorias e raciocínios circulares, baseados grandemente no conjunto de experiências que já tivemos. A resposta não é uma resposta, mas uma cascata de perguntas e mais perguntas. É um labirinto sem fim. O corpo agita-se e teima em não ficar quieto, ou, vai para o extremo oposto e tolda-se num torpor espesso como nevoeiro.

Esta prática leva a uma dessensibilização progressiva do medo e ansiedade da morte, o que traz um contacto mais intenso com a sua polaridade – a vida. Na medida em que aceitamos a “sombra” da vida, assim também a experiência de estar vivo se aprofunda, não havendo nada a excluir. Daí, ocorre um realinhamento natural entre desejos fugazes e propósitos existenciais. Tudo o que é acessório à nossa trajectória ou dela nos desvia, mais facilmente será posto de parte.

 

Do mesmo modo que viemos ao mundo num movimento de agarrar a vida, assim devemos aceitar a ideia de a ir largando gradualmente. É o movimento natural de expansão e contracção de tudo o que existe. O nosso movimento de inspirar e expirar, e, por exemplo, o movimento anual de respiração da Terra, são a mesma coisa, só mudam as escalas. Se observarmos a nossa respiração com sabedoria, temos aqui tudo o que precisamos para compreender vida e morte.

Há uma grande diferença entre renunciar a algo de forma pacífica, e, agarrar cegamente até sufocar o que estamos a agarrar. A diferença mede-se no sofrimento da nossa existência.

Não será que talvez aceitando o milagre da renovação, daí possa vir uma paz mais duradoura? Não será que preparar o terreno para sermos o húmus e não o pesticida que envenena, possa constituir o único legado que vale a pena? Não será que reconhecer a oportunidade das novas gerações virem fazer diferente e melhor do que fizemos, trazendo novas respostas ao mundo, seja o acto derradeiro de compaixão pela espécie humana?

Quando estivermos perto do momento da morte, a paz no coração é a medida para aferir a nobreza de uma vida. Esta trégua conquista-se numa intimidade amorosa com tudo o que vivemos, fazendo sentido da nossa história de alegrias e misérias, perdas e conquistas.

Esta existência nunca foi uma corrida, não há prémios por chegar primeiro ou acumular mais. Vamos todos cruzar a meta que é um buraco de agulha, e nesse buraco, só o fio do Amor passa.

A vida não é um escoadouro onde há que esbracejar teimosamente numa luta heróica, carregando em frente sem saber para onde. A haver luta – que haverá certamente se seguirmos a via do coração – não é com a morte, nem com a vida, mas com tudo o que se lhes oponha. Ou como dizia o Rumi, poeta Persa do séc. XIII: “A nossa tarefa não é buscar o Amor, mas apenas procurar e desfazer todas as barreiras que fomos erguendo no nosso coração para o deter.

Perante a angústia do desconhecido, cabe-nos confiar numa sabedoria por trás de tudo o que existe. O Universo já anda nisto há uns tempos e continuará muito depois de termos cumprido o nosso papel individual. Desconfio que o que realmente somos, esteja algo para lá da nossa compreensão. No entanto, existe em nós a possibilidade de vivenciar um silêncio e uma paz onde intuir a verdade.

 

A vida não é uma resposta, é antes uma eterna pergunta, e, é no silêncio de nós mesmos, ali onde o coração serena, que a pergunta perde o sentido de interrogação.

 

Quem quer que seja que me trouxe aqui, terá de levar-me para casa.”, Rumi

 

 

Filipe Raposo

Escrito em Fevereiro de 2016

Foto de Sammie Vasquez em Unsplash

 

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