Mensagem Numa Garrafa

14 de Fevereiro, 2017

 

Todos os actos provêm do amor ou são um pedido de amor”, Desconhecido

 

Desde que me lembro de mim que carrego uma ferida de vergonha e humilhação. Não me recordo da sua origem, ou sequer em que contexto fui humilhado, mas é algo que está ainda ancorado no meu corpo. É uma experiência muito visceral na qual sinto o corpo literalmente a irromper em chamas, no peito, nas costas, no pescoço, na cara. O coração dispara, começo a suar compulsivamente e o ar falta-me. Tudo nesta reacção me incita a abortar imediatamente o que quer que esteja em curso e a sair do foco de atenção. Não posso arriscar ser humilhado novamente, é demasiado doloroso. É urgente encontrar um buraco onde me esconder.

 

A vergonha pode ser um regulador importante dos comportamentos sociais, se a sua aprendizagem em criança for integrada adequadamente, mantendo o vínculo e a noção do valor próprio a salvo. Para que esta integração seja saudável, o momento de vergonha que resulta da tomada de consciência de um comportamento culturalmente inadequado, deve ser sempre um mecanismo temporário, e, impreterivelmente ser seguido de um momento de reparação. Um momento em que uma figura de vinculação da criança venha relembrar que o amor não está em risco. Isto permite que a criança preserve o seu valor próprio, havendo uma separação clara entre o valor intrínseco da pessoa e o seu comportamento. A minha acção foi inaceitável, mas eu não sou uma pessoa inaceitável.

A intensidade da experiência também é um factor decisivo. Se o contexto que activou o sentimento de vergonha for avassalador para a pessoa em causa, ou se ocorrer de forma continuada, aí trata-se de uma agressão na forma de humilhação.

Uma situação de agressão ou humilhação normalmente tem esta tríade: a vítima, o agressor e desejavelmente uma pessoa que traga a reparação.

 

Há algum tempo atrás comecei a olhar e a cuidar desta ferida que dói tanto. O adulto em mim começou a reparar o vínculo com a criança vítima de humilhação. Comecei a fazer as pazes com o que sou e a firmar um compromisso de amor e vinculo comigo mesmo, trazendo auto-compaixão e um sentido de aliança e não-abandono incondicional, mesmo quando o meu comportamento fica aquém do que gostaria. É o caminho que tento seguir a cada dia. Mas, faltava-me compreender ainda outra parte deste conflito interior. Faltava-me reconhecer o agressor em mim.

O sonho comanda a vida, segundo dizem. Acho que por vezes revela a vida também. Parece que o inconsciente se nos vai revelando, na medida em que estamos preparados para lhe dar significado. Foi num desses sonhos que tive notícias de mim. Um eco de dor do passado veio das profundezas clamando reconhecimento, responsabilidade e honestidade.

No meu sonho, havia uma criança com muita raiva e hostilidade que me acusava de ter contribuído para a sua desgraça. Não lhe reconheci a cara a princípio, mas entendi a sua mensagem. A sua cara, era a cara de todas as crianças que eu ajudei a agredir. A sua mensagem falava de humilhação e injustiça. Quando acordei, começaram a desfilar perante mim diversas situações da minha infância e adolescência nas quais fui agressor ou me juntei a agressores de forma passiva ou activa. Para não estar no lugar de humilhado, humilhei. Para não ser visto como inaceitável juntei-me aos que apontavam o dedo, aos que gozavam, aos que agrediam fisicamente os mais fracos, ou com maior dificuldade de integração. Para não ser abandonado, abandonei quem tinha tanto em comum comigo. As suas caras vieram visitar-me e chorei. E chorei pela noite dentro. Senti uma enorme mágoa e perda. Por fim veio paz. Foi o momento em que senti que a minha ferida de humilhação tinha sido vista por inteiro. Já não fazia sentido agarrar-me a ressentimento pela humilhação que sofri. Deixei de me ver como vítima. Agora posso tomar este pedaço como meu e ficar um pouco mais inteiro.

Começou depois a emergir o entendimento de como o ciclo de violência se perpetua. Neste caso entre crianças, mas tantas vezes entre pais e filhos. Violência gera violência. O humilhado torna-se humilhador. O que faz bullying quase sempre sofreu ele próprio a ferida da violência ou da humilhação. Castigar o agressor não quebra o ciclo. O agressor precisa tanto de reparação quanto a própria vítima.

 

“Galiau”, Marco, Ismael, Sérgio, Chico, e outros que não recordo os nomes: Os nossos caminhos separaram-se há uma eternidade atrás. Eramos apenas crianças a fazer o melhor que conseguíamos para ser felizes. Fiz asneiras, mas sei também que já consigo fazer muito melhor. Fica a minha intenção de que estejam em paz. É pouco, eu sei. É apenas uma mensagem numa garrafa que deito ao mar de possibilidades que é a vida. Faço figas de que esta mensagem lhes chegue, como a mim me chegou num sonho.

 

Desejo-lhes toda a felicidade do mundo. Que a carga não vos seja demasiado pesada. Que possamos todos encontrar o caminho de regresso a casa.

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Fevereiro de 2017

Foto de Jordan Whitt em Unsplash

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Desde que me lembro de mim que carrego uma ferida de vergonha e humilhação. Não me recordo da sua origem, ou sequer em que contexto fui humilhado, mas é algo que está ainda ancorado no meu corpo. É uma experiência muito visceral na qual sinto o corpo literalmente a irromper em chamas, no peito, nas costas, no pescoço, na cara. O coração dispara, começo a suar compulsivamente e o ar falta-me. Tudo nesta reacção me incita a abortar imediatamente o que quer que esteja em curso e a sair do foco de atenção. Não posso arriscar ser humilhado novamente, é demasiado doloroso. É urgente encontrar um buraco onde me esconder.

 

A vergonha pode ser um regulador importante dos comportamentos sociais, se a sua aprendizagem em criança for integrada adequadamente, mantendo o vínculo e a noção do valor próprio a salvo. Para que esta integração seja saudável, o momento de vergonha que resulta da tomada de consciência de um comportamento culturalmente inadequado, deve ser sempre um mecanismo temporário, e, impreterivelmente ser seguido de um momento de reparação. Um momento em que uma figura de vinculação da criança venha relembrar que o amor não está em risco. Isto permite que a criança preserve o seu valor próprio, havendo uma separação clara entre o valor intrínseco da pessoa e o seu comportamento. A minha acção foi inaceitável, mas eu não sou uma pessoa inaceitável.

A intensidade da experiência também é um factor decisivo. Se o contexto que activou o sentimento de vergonha for avassalador para a pessoa em causa, ou se ocorrer de forma continuada, aí trata-se de uma agressão na forma de humilhação.

Uma situação de agressão ou humilhação normalmente tem esta tríade: a vítima, o agressor e desejavelmente uma pessoa que traga a reparação.

 

Há algum tempo atrás comecei a olhar e a cuidar desta ferida que dói tanto. O adulto em mim começou a reparar o vínculo com a criança vítima de humilhação. Comecei a fazer as pazes com o que sou e a firmar um compromisso de amor e vinculo comigo mesmo, trazendo auto-compaixão e um sentido de aliança e não-abandono incondicional, mesmo quando o meu comportamento fica aquém do que gostaria. É o caminho que tento seguir a cada dia. Mas, faltava-me compreender ainda outra parte deste conflito interior. Faltava-me reconhecer o agressor em mim.

O sonho comanda a vida, segundo dizem. Acho que por vezes revela a vida também. Parece que o inconsciente se nos vai revelando, na medida em que estamos preparados para lhe dar significado. Foi num desses sonhos que tive notícias de mim. Um eco de dor do passado veio das profundezas clamando reconhecimento, responsabilidade e honestidade.

No meu sonho, havia uma criança com muita raiva e hostilidade que me acusava de ter contribuído para a sua desgraça. Não lhe reconheci a cara a princípio, mas entendi a sua mensagem. A sua cara, era a cara de todas as crianças que eu ajudei a agredir. A sua mensagem falava de humilhação e injustiça. Quando acordei, começaram a desfilar perante mim diversas situações da minha infância e adolescência nas quais fui agressor ou me juntei a agressores de forma passiva ou activa. Para não estar no lugar de humilhado, humilhei. Para não ser visto como inaceitável juntei-me aos que apontavam o dedo, aos que gozavam, aos que agrediam fisicamente os mais fracos, ou com maior dificuldade de integração. Para não ser abandonado, abandonei quem tinha tanto em comum comigo. As suas caras vieram visitar-me e chorei. E chorei pela noite dentro. Senti uma enorme mágoa e perda. Por fim veio paz. Foi o momento em que senti que a minha ferida de humilhação tinha sido vista por inteiro. Já não fazia sentido agarrar-me a ressentimento pela humilhação que sofri. Deixei de me ver como vítima. Agora posso tomar este pedaço como meu e ficar um pouco mais inteiro.

Começou depois a emergir o entendimento de como o ciclo de violência se perpetua. Neste caso entre crianças, mas tantas vezes entre pais e filhos. Violência gera violência. O humilhado torna-se humilhador. O que faz bullying quase sempre sofreu ele próprio a ferida da violência ou da humilhação. Castigar o agressor não quebra o ciclo. O agressor precisa tanto de reparação quanto a própria vítima.

 

“Galiau”, Marco, Ismael, Sérgio, Chico, e outros que não recordo os nomes: Os nossos caminhos separaram-se há uma eternidade atrás. Eramos apenas crianças a fazer o melhor que conseguíamos para ser felizes. Fiz asneiras, mas sei também que já consigo fazer muito melhor. Fica a minha intenção de que estejam em paz. É pouco, eu sei. É apenas uma mensagem numa garrafa que deito ao mar de possibilidades que é a vida. Faço figas de que esta mensagem lhes chegue, como a mim me chegou num sonho.

 

Desejo-lhes toda a felicidade do mundo. Que a carga não vos seja demasiado pesada. Que possamos todos encontrar o caminho de regresso a casa.

 

 

Filipe Raposo

Texto escrito em Fevereiro de 2017

Foto de Jordan Whitt em Unsplash

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