Frutos de Vipassanā

26 de Fevereiro, 2020

 

“Os contos de fada são mais que reais, não porque nos dizem que os dragões existem, mas porque nos dizem que os dragões podem ser derrotados”, Gilbert K. Chesterton

“A mente cria o abismo, o coração atravessa-o”, Sri Nisargadatta

 

 

Antes de me propor a este desafio, falei com várias pessoas que já tinham realizado um destes retiros Vipassanā de dez dias. Todas sobreviveram à experiência, algumas delas até repetiram várias vezes. Em comum, tinham a partilha de algo do género: “O terceiro dia é o mais duro. A partir daí tudo se torna mais fácil…”. O número três ficou-me na cabeça como barreira a transpor.

Acabei por descobrir que para mim, todos os dias foram o dia mais duro. Diversas vezes me surgiu a imagem e sensação, de estar a comer uma ostra à dentada para encontrar a pérola.

Bom, mas vamos começar pelo inicio. A experiência pessoal que aqui vos trago, passou-se num retiro de meditação vipassanā em janeiro de 2015. Vipassanā, refere-se na língua Pāli (língua antiga indiana, próxima daquela falada no tempo do Buddha), à qualidade da mente de investigação e de visão profunda da natureza da realidade.

Na meditação budista é frequente ouvir-se falar acerca das duas qualidades da mente a desenvolver a par e passo: samatha e vipassanā, sendo que samatha se refere à qualidade de concentração e tranquilidade mental.

Existem diversos tipos de treino de meditação vipassanā, sendo que aquele que frequentei é da tradição de S.N. Goenka. Estes retiros são organizados um pouco por todo o Mundo, sempre no mesmo formato, e são muito exigentes a nível físico e mental, uma vez que o programa prevê a prática de meditação durante dez dias num total de cerca de dez horas por dia, em silêncio absoluto (com excepção da possibilidade de um pequeno momento de partilha diário com o professor). Posso dizer sem duvida que foi um dos desafios mais exigentes a que alguma vez me propus.

 

Foco e relação com o desconforto

Nos primeiros três dias de retiro, treina-se samatha, ou quietude e estabilidade mental. Durante três dias o meu mundo reduziu-se a uma área do tamanho de uma moeda, na zona abaixo das narinas e acima do lábio superior. A proposta era a de ir notando atentamente nessa área, as sensações físicas resultantes do processo de respiração. Senti que a minha atenção atingia um estado de foco com uma estabilidade que nunca tinha conhecido antes. Tive períodos de muito contentamento natural, resultante de uma mente que tendia a estar quieta, serena e não-reactiva.

Ao longo destes três dias, e, à medida que o ruído associado às vivências do dia-a-dia se ia atenuando, a mente tendia a tornar-se naturalmente calma e enérgica. Compreendi como a minha ruminação mental habitual, as preocupações, os diálogos interiores, os planos e estórias que me vou contando consomem tanta energia. A propósito disto, fiquei surpreendido pois durante o retiro, só consegui dormir cerca de três ou quatro horas por noite, e, ainda assim senti-me com bastante vitalidade. Mais tarde soube, que nestes retiros, isto é uma experiência partilhada por muitos participantes.

Outra descoberta muito significativa que trouxe deste retiro, foi a reavaliação da minha relação com o desconforto. Ao fim de tantas horas sentado a meditar, doía-me o corpo literalmente das unhas dos pés à ponta dos cabelos. Não estou a exagerar. Mas foi curioso ir descobrindo a cada sessão de meditação como conseguia sentar-me com o desconforto, sem necessariamente entrar em aversão ou sem me dissociar. Observava os pensamentos críticos a surgirem: “Mas porque é que me vim meter nisto? E ainda por cima a gastar preciosos dias de férias…”, “E como é que aquele tipo consegue estar ali imóvel durante horas, sentado no chão em posição de lótus?” e ia respirando.

Por vezes cheguei quase ao limiar do desconforto físico. A dor parecia tão sólida e insuportável, que o impulso era de me mexer, de mudar de postura. Foi o que fiz algumas vezes. Mas, numa ou outra vez, consegui permitir esta experiência difícil com gentileza, convidando até alguma auto-compaixão. Nesses momentos ocorria uma espécie de rendição na mente e no corpo. Então a dor “desfazia-se”, e sentia uma cascata de sensações reconfortantes a percorrer-me. Ficava claro como parte considerável daquele desconforto resultava da minha resistência ao que sentia. Outra e outra vez, vi o que acreditava ser o limiar da minha tolerância ao desconforto expandir-se um pouco mais.

 

Contactar a vergonha e o medo

A partir do quarto dia, começou o treino de vipassanā propriamente dito. A prática de meditação passava agora por levar esta atenção focada, percorrendo todo o corpo e notando as sensações, das mais grosseiras às mais sublimes, independentemente de estas serem agradáveis, desagradáveis ou neutras. Íamos sendo convidados a observar a impermanência das sensações com equanimidade. Para quem não conhece o conceito de equanimidade, imagine como seria conseguir segurar de forma igualmente atenta e permissiva, numa mão, uma aranha venenosa, e na outra, uma borboleta. Acolher ambas sem evitar e sem agarrar.

Algures pelo sétimo dia, uma breve interação que tive num momento de partilha em grupo, trouxe-me uma emoção forte de vergonha. Não me recordo bem porquê. Talvez me tenha sentido inadequado quando partilhei algo com o professor diante do meu grupo. Na verdade, parece-me que nem houve um porquê. Esta emoção é uma energia tão antiga que nem tenho memória de onde veio. Por vezes só precisa de um pequeno “gatilho” para se manifestar.

Durante o oitavo dia, esta emoção de vergonha voltou a estar presente. Lembro-me de sensações muito desagradáveis de calor intenso, vermelhidão e muita sudação nas costas, peito, pescoço, cara e couro cabeludo. Nada disto me era desconhecido. Desde que me lembro de mim que esta reacção surge em situações em que tenho que me expor à frente de muita gente, ou quando corro o risco de ser exposto ao ridículo ou à humilhação. Desta vez as sensações surgiam muito amplificadas. Parecia que partes do meu corpo estavam a arder, tal era o calor que sentia.

Foi então que entrou o medo. Por esta altura comecei a ponderar parar de imediato a técnica e sair dali para fora. Pensei: “Será que abri uma caixa de Pandora e não vou conseguir lidar com tudo isto que está a surgir?”,“Será que a minha reacção habitual de vergonha vai passar a ser sempre assim?”.

Por esta altura o medo já era tão ou mais intenso que a vergonha. Sentia-o a chegar em ondas e quanto mais pensava, mais o medo crescia, alimentado por cenários aterrorizadores.

 

O coração vence o medo

Foi então que emergiu momentaneamente um lado meu mais maduro, com maior presença de espírito e que conseguiu vislumbrar o que aquele momento pedia. Veio-me à memória algo que o meu professor de meditação havia contado acerca do medo. Vinha de uma história do tempo do Buda. Na mitologia budista, reza a história que um dia, alguns monges chegaram à presença do Iluminado perfeitamente aterrorizados. Contaram-lhe como na escuridão da floresta, haviam sido assombrados por espíritos ameaçadores. O Buda tranquilizou-os e recomendou-lhes que voltassem a enfrentar as trevas da floresta, mas desta vez deveriam abrir os seus corações e praticar uma meditação de amor altruísta. Mais do que isso, deveriam dirigir esta gentileza e bondade também aos próprios espíritos da floresta. Assim foi. Os monges embrenharam-se na floresta e cultivaram a bondade e o amor altruísta em direcção a todos os seres, visíveis e invisíveis. Ao verem aqueles monges piedosos a desejar-lhes bem-aventurança, os espíritos da floresta alegraram-se e tornaram-se pacíficos. E foi assim que o amor foi o antídoto para o medo.

 

Percebi que aquele era um momento fulcral, percebi que a minha atitude face ao medo naquele momento, teria um impacto na minha relação com o medo para o resto da vida. Decidi fincar o pé e defender o meu chão. Decidi enfrentar o medo, mas desta vez levando comigo o amor e a compaixão.

Na meditação seguinte, que durou uma hora, sentei-me e comecei por me desejar amor e felicidade colocando as mãos no peito e sentindo benquerença por mim mesmo. Depois inclinei esta intenção em direcção às pessoas de quem mais gosto: o meu primo Luís, a minha Mãe, o meu Pai (apesar de já ter falecido), por aí fora. Em especial, lembrei-me de como tem sido sofrida a vida da minha Mãe, precisamente por não enfrentar os seus medos. Desejei-lhe muito amor e paz.

Vi-me a mim próprio em pequenino, talvez com 5 ou 6 anos de idade. Dei a mão a esta criança assustada. Disse-lhe que já não precisava de ter medo ou de sentir vergonha, pois eu iria sempre acompanhá-la. Já não precisava de se esconder no escuro por não ser digna de ser vista, já não precisava de ficar do lado de fora da porta à chuva e ao frio. As lágrimas começaram a escorrer-me como um rio pela cara, pescoço, peito. Continuei focado nas sensações do corpo, respirando, tentando não fugir a este incêndio que alastrava e me consumia. De vez em quando ia relembrando as pessoas que me eram queridas, sentindo-as por perto com uma mão no meu ombro. Ouvia as suas palavras de incentivo e encorajamento. Naquele momento elas estavam ali comigo. Sentia-me a travar uma batalha por aquilo que tenho de mais querido: a possibilidade de ser Eu por inteiro.

Dentro de mim fui dizendo, dirigindo-me ao medo: “Podes magoar-me, podes envergonhar-me, podes queimar-me nestas chamas, mas não me vais fazer virar costas a mim mesmo! Não me vais fazer abandonar-me!”. Estas afirmações foram-me ajudando a ganhar empoderamento.

Cheguei ao final daquela hora lavado em lágrimas.

O fogo que sentia há pouco extinguira-se, agora haviam arrepios a percorrer-me todo o corpo. Sentia-me aconchegado, como se tivesse tomado um banho de água morno.

Saí para fora da sala de meditação, e, no caminho para o dormitório, num sítio muito escuro onde se viam as estrelas no céu surgindo por entre as nuvens, reforcei mais uma vez a promessa que tinha feito há pouco: Não me vou voltar a abandonar, não vou deixar de dar passos decisivos em direcção aos sonhos devido ao medo, devido à vergonha. Nessa noite, assim que aterrei na cama dormi profundamente de coração a sorrir.

 

Frutos de Vipassanā

Aquele momento em que enfrentei o medo e em que abracei a minha vulnerabilidade com compaixão tornou-me mais inteiro. Foi um momento em que me senti autor da minha vida e em que firmei um compromisso de tentar ser tudo o que posso ser. O medo continua a visitar-me, mas já o vou conhecendo intimamente. Já o vou podendo olhar.

Descobri como a compaixão tem estas duas componentes poderosas: uma faceta mais Yin, que permite ir ao encontro da vulnerabilidade com gentileza e amorosidade, e uma faceta mais Yang, que permite mobilizar a coragem e o empoderamento para avançar e defender o que é importante.

Sinto que não teria conseguido atravessar aquele vale de escuridão sem esta candeia do amor e da compaixão.

 

Filipe Raposo

Texto Escrito em Fevereiro de 2020

 

Imagem de Rodolfo Clix, extraída de Pexels

Deixe um comentário

avatar
  Subscrever  
Notificação de

 

“Os contos de fada são mais que reais, não porque nos dizem que os dragões existem, mas porque nos dizem que os dragões podem ser derrotados”, Gilbert K. Chesterton

“A mente cria o abismo, o coração atravessa-o”, Sri Nisargadatta

 

 

Antes de me propor a este desafio, falei com várias pessoas que já tinham realizado um destes retiros Vipassanā de dez dias. Todas sobreviveram à experiência, algumas delas até repetiram várias vezes. Em comum, tinham a partilha de algo do género: “O terceiro dia é o mais duro. A partir daí tudo se torna mais fácil…”. O número três ficou-me na cabeça como barreira a transpor.

Acabei por descobrir que para mim, todos os dias foram o dia mais duro. Diversas vezes me surgiu a imagem e sensação, de estar a comer uma ostra à dentada para encontrar a pérola.

Bom, mas vamos começar pelo inicio. A experiência pessoal que aqui vos trago, passou-se num retiro de meditação vipassanā em janeiro de 2015. Vipassanā, refere-se na língua Pāli (língua antiga indiana, próxima daquela falada no tempo do Buddha), à qualidade da mente de investigação e de visão profunda da natureza da realidade.

Na meditação budista é frequente ouvir-se falar acerca das duas qualidades da mente a desenvolver a par e passo: samatha e vipassanā, sendo que samatha se refere à qualidade de concentração e tranquilidade mental.

Existem diversos tipos de treino de meditação vipassanā, sendo que aquele que frequentei é da tradição de S.N. Goenka. Estes retiros são organizados um pouco por todo o Mundo, sempre no mesmo formato, e são muito exigentes a nível físico e mental, uma vez que o programa prevê a prática de meditação durante dez dias num total de cerca de dez horas por dia, em silêncio absoluto (com excepção da possibilidade de um pequeno momento de partilha diário com o professor). Posso dizer sem duvida que foi um dos desafios mais exigentes a que alguma vez me propus.

 

Foco e relação com o desconforto

Nos primeiros três dias de retiro, treina-se samatha, ou quietude e estabilidade mental. Durante três dias o meu mundo reduziu-se a uma área do tamanho de uma moeda, na zona abaixo das narinas e acima do lábio superior. A proposta era a de ir notando atentamente nessa área, as sensações físicas resultantes do processo de respiração. Senti que a minha atenção atingia um estado de foco com uma estabilidade que nunca tinha conhecido antes. Tive períodos de muito contentamento natural, resultante de uma mente que tendia a estar quieta, serena e não-reactiva.

Ao longo destes três dias, e, à medida que o ruído associado às vivências do dia-a-dia se ia atenuando, a mente tendia a tornar-se naturalmente calma e enérgica. Compreendi como a minha ruminação mental habitual, as preocupações, os diálogos interiores, os planos e estórias que me vou contando consomem tanta energia. A propósito disto, fiquei surpreendido pois durante o retiro, só consegui dormir cerca de três ou quatro horas por noite, e, ainda assim senti-me com bastante vitalidade. Mais tarde soube, que nestes retiros, isto é uma experiência partilhada por muitos participantes.

Outra descoberta muito significativa que trouxe deste retiro, foi a reavaliação da minha relação com o desconforto. Ao fim de tantas horas sentado a meditar, doía-me o corpo literalmente das unhas dos pés à ponta dos cabelos. Não estou a exagerar. Mas foi curioso ir descobrindo a cada sessão de meditação como conseguia sentar-me com o desconforto, sem necessariamente entrar em aversão ou sem me dissociar. Observava os pensamentos críticos a surgirem: “Mas porque é que me vim meter nisto? E ainda por cima a gastar preciosos dias de férias…”, “E como é que aquele tipo consegue estar ali imóvel durante horas, sentado no chão em posição de lótus?” e ia respirando.

Por vezes cheguei quase ao limiar do desconforto físico. A dor parecia tão sólida e insuportável, que o impulso era de me mexer, de mudar de postura. Foi o que fiz algumas vezes. Mas, numa ou outra vez, consegui permitir esta experiência difícil com gentileza, convidando até alguma auto-compaixão. Nesses momentos ocorria uma espécie de rendição na mente e no corpo. Então a dor “desfazia-se”, e sentia uma cascata de sensações reconfortantes a percorrer-me. Ficava claro como parte considerável daquele desconforto resultava da minha resistência ao que sentia. Outra e outra vez, vi o que acreditava ser o limiar da minha tolerância ao desconforto expandir-se um pouco mais.

 

Contactar a vergonha e o medo

A partir do quarto dia, começou o treino de vipassanā propriamente dito. A prática de meditação passava agora por levar esta atenção focada, percorrendo todo o corpo e notando as sensações, das mais grosseiras às mais sublimes, independentemente de estas serem agradáveis, desagradáveis ou neutras. Íamos sendo convidados a observar a impermanência das sensações com equanimidade. Para quem não conhece o conceito de equanimidade, imagine como seria conseguir segurar de forma igualmente atenta e permissiva, numa mão, uma aranha venenosa, e na outra, uma borboleta. Acolher ambas sem evitar e sem agarrar.

Algures pelo sétimo dia, uma breve interação que tive num momento de partilha em grupo, trouxe-me uma emoção forte de vergonha. Não me recordo bem porquê. Talvez me tenha sentido inadequado quando partilhei algo com o professor diante do meu grupo. Na verdade, parece-me que nem houve um porquê. Esta emoção é uma energia tão antiga que nem tenho memória de onde veio. Por vezes só precisa de um pequeno “gatilho” para se manifestar.

Durante o oitavo dia, esta emoção de vergonha voltou a estar presente. Lembro-me de sensações muito desagradáveis de calor intenso, vermelhidão e muita sudação nas costas, peito, pescoço, cara e couro cabeludo. Nada disto me era desconhecido. Desde que me lembro de mim que esta reacção surge em situações em que tenho que me expor à frente de muita gente, ou quando corro o risco de ser exposto ao ridículo ou à humilhação. Desta vez as sensações surgiam muito amplificadas. Parecia que partes do meu corpo estavam a arder, tal era o calor que sentia.

Foi então que entrou o medo. Por esta altura comecei a ponderar parar de imediato a técnica e sair dali para fora. Pensei: “Será que abri uma caixa de Pandora e não vou conseguir lidar com tudo isto que está a surgir?”,“Será que a minha reacção habitual de vergonha vai passar a ser sempre assim?”.

Por esta altura o medo já era tão ou mais intenso que a vergonha. Sentia-o a chegar em ondas e quanto mais pensava, mais o medo crescia, alimentado por cenários aterrorizadores.

 

O coração vence o medo

Foi então que emergiu momentaneamente um lado meu mais maduro, com maior presença de espírito e que conseguiu vislumbrar o que aquele momento pedia. Veio-me à memória algo que o meu professor de meditação havia contado acerca do medo. Vinha de uma história do tempo do Buda. Na mitologia budista, reza a história que um dia, alguns monges chegaram à presença do Iluminado perfeitamente aterrorizados. Contaram-lhe como na escuridão da floresta, haviam sido assombrados por espíritos ameaçadores. O Buda tranquilizou-os e recomendou-lhes que voltassem a enfrentar as trevas da floresta, mas desta vez deveriam abrir os seus corações e praticar uma meditação de amor altruísta. Mais do que isso, deveriam dirigir esta gentileza e bondade também aos próprios espíritos da floresta. Assim foi. Os monges embrenharam-se na floresta e cultivaram a bondade e o amor altruísta em direcção a todos os seres, visíveis e invisíveis. Ao verem aqueles monges piedosos a desejar-lhes bem-aventurança, os espíritos da floresta alegraram-se e tornaram-se pacíficos. E foi assim que o amor foi o antídoto para o medo.

 

Percebi que aquele era um momento fulcral, percebi que a minha atitude face ao medo naquele momento, teria um impacto na minha relação com o medo para o resto da vida. Decidi fincar o pé e defender o meu chão. Decidi enfrentar o medo, mas desta vez levando comigo o amor e a compaixão.

Na meditação seguinte, que durou uma hora, sentei-me e comecei por me desejar amor e felicidade colocando as mãos no peito e sentindo benquerença por mim mesmo. Depois inclinei esta intenção em direcção às pessoas de quem mais gosto: o meu primo Luís, a minha Mãe, o meu Pai (apesar de já ter falecido), por aí fora. Em especial, lembrei-me de como tem sido sofrida a vida da minha Mãe, precisamente por não enfrentar os seus medos. Desejei-lhe muito amor e paz.

Vi-me a mim próprio em pequenino, talvez com 5 ou 6 anos de idade. Dei a mão a esta criança assustada. Disse-lhe que já não precisava de ter medo ou de sentir vergonha, pois eu iria sempre acompanhá-la. Já não precisava de se esconder no escuro por não ser digna de ser vista, já não precisava de ficar do lado de fora da porta à chuva e ao frio. As lágrimas começaram a escorrer-me como um rio pela cara, pescoço, peito. Continuei focado nas sensações do corpo, respirando, tentando não fugir a este incêndio que alastrava e me consumia. De vez em quando ia relembrando as pessoas que me eram queridas, sentindo-as por perto com uma mão no meu ombro. Ouvia as suas palavras de incentivo e encorajamento. Naquele momento elas estavam ali comigo. Sentia-me a travar uma batalha por aquilo que tenho de mais querido: a possibilidade de ser Eu por inteiro.

Dentro de mim fui dizendo, dirigindo-me ao medo: “Podes magoar-me, podes envergonhar-me, podes queimar-me nestas chamas, mas não me vais fazer virar costas a mim mesmo! Não me vais fazer abandonar-me!”. Estas afirmações foram-me ajudando a ganhar empoderamento.

Cheguei ao final daquela hora lavado em lágrimas.

O fogo que sentia há pouco extinguira-se, agora haviam arrepios a percorrer-me todo o corpo. Sentia-me aconchegado, como se tivesse tomado um banho de água morno.

Saí para fora da sala de meditação, e, no caminho para o dormitório, num sítio muito escuro onde se viam as estrelas no céu surgindo por entre as nuvens, reforcei mais uma vez a promessa que tinha feito há pouco: Não me vou voltar a abandonar, não vou deixar de dar passos decisivos em direcção aos sonhos devido ao medo, devido à vergonha. Nessa noite, assim que aterrei na cama dormi profundamente de coração a sorrir.

 

Frutos de Vipassanā

Aquele momento em que enfrentei o medo e em que abracei a minha vulnerabilidade com compaixão tornou-me mais inteiro. Foi um momento em que me senti autor da minha vida e em que firmei um compromisso de tentar ser tudo o que posso ser. O medo continua a visitar-me, mas já o vou conhecendo intimamente. Já o vou podendo olhar.

Descobri como a compaixão tem estas duas componentes poderosas: uma faceta mais Yin, que permite ir ao encontro da vulnerabilidade com gentileza e amorosidade, e uma faceta mais Yang, que permite mobilizar a coragem e o empoderamento para avançar e defender o que é importante.

Sinto que não teria conseguido atravessar aquele vale de escuridão sem esta candeia do amor e da compaixão.

 

Filipe Raposo

Texto Escrito em Fevereiro de 2020

 

Imagem de Rodolfo Clix, extraída de Pexels

Deixe um comentário

avatar
  Subscrever  
Notificação de