Cooperação Olímpica

20 de Dezembro, 2017

 

As pessoas educam para a competição e esse é o princípio de qualquer guerra. Quando educarmos para cooperarmos e sermos solidários uns com os outros, nesse dia estaremos a educar para a paz.”, Maria Montessori

 

Lembro-me de ter uns dez anitos quando entrei na minha primeira competição desportiva. Era um torneio de ping-pong. Estava muito nervoso, em cima de mim pairavam os vários olhares e expectativas dos adultos. Sentia medo de não estar à altura. Parecia que os meus braços estavam sem força e não tinha a alegria que costumava sentir quando jogava com os amigos. Joguei muito pior do que conseguia nos treinos, mas, com algum esforço, lá consegui vencer o adversário, um miúdo bem mais pequeno que eu (talvez de oito ou nove anos). Quando o jogo terminou, correram para mim e levantaram-me no ar em celebração. Fiz um sorriso para corresponder, mas por dentro não havia entusiasmo. Pelo canto do olho consegui ainda ver o outro miúdo a caminhar sozinho em direcção à saída. Ninguém estava lá com ele. Ninguém celebrou o seu esforço, ou honrou a sua coragem. Parecia muito triste, seriam lágrimas na sua cara?

 

Por algum motivo não registei aquela experiência como um acontecimento construtivo no meu percurso.

 

Recentemente, ao recordar este episódio, começaram a surgir-me algumas questões mais filosóficas: Será que a competição é algo assim tão importante para nós? Será que para um se elevar, o(s) outro(s) te(ê)m que ficar por baixo? Que aspecto teria uma sociedade, em que a força prevalecente não fosse apenas a competição, mas também a cooperação?

 

A competição constitui um mecanismo central em todos os aspectos da sociedade, desde o desporto, à educação, à economia, ao negócio, aos relacionamentos, à beleza e até às ideias que temos, do que é ser bem sucedido e do valor que uma pessoa tem.

Charles Darwin, reconheceu a competição e a cooperação como instintos poderosos no homem. Ele foi uma das primeiras figuras a observar, como, em termos evolutivos, a cooperação representou uma vantagem considerável relativamente à competição. A competição pode levar a maiores ganhos no curto prazo do ponto de vista do individuo, no entanto, no longo prazo, a cooperação traz maiores proveitos para o colectivo, o que se reflecte também em cada individuo.

Enquanto a competição propicia sociedades fortemente estratificadas, em que impera a lei da selva, o défice de ética, o narcisismo, a normalização da violência, do sectarismo e dos nacionalismos, a cooperação fomenta comportamentos pro-sociais que levam a sociedades mais pacíficas, tolerantes e resilientes. Pode-se dizer que a competição nos separa dos outros (indivíduos, grupos, nações) e isola com a pergunta: “Como posso ser melhor que os outros?” Enquanto a cooperação nos aproxima dos outros perguntando: “Como posso dar o meu contributo para ajudar os outros e sentir-me parte de algo maior que eu?”

A competição é um instinto forte, presente em nós, que parece partir da vontade de sobreviver, de prosperar, de sentir prazer ou reconhecimento, e emerge de um lugar que pressente uma escassez de recursos (real ou ilusória). É um mecanismo essencial na natureza, para regular os ecossistemas e ditar os equilíbrios de poder entre espécies e dentro da mesma espécie. Na nossa espécie, a competição tem um papel importante como estimulo à superação dos nossos limites e como ímpeto para atingirmos o nosso potencial individual.

A cooperação é um instinto igualmente forte que nasce da nossa natureza gregária. Somos animais sociais por necessidade. Vimos ao mundo totalmente indefesos. No entanto, cooperando em tribo, fomos capazes de nos organizar para proteger as tenras crias durante os primeiros anos de vida, pudemos construir abrigos e caçar em equipa com estratégias engenhosas. Desta convivência social surgiu a linguagem, a cultura, a ciência, as artes, etc.

 

O nosso movimento de superação e conquista individual deve ser acompanhado da maturação das competências que nos ligam aos outros e ajudam a zelar pela comunidade. A jornada arquetípica da nossa maturação fica incompleta sem estes dois movimentos. Primeiro, em direcção ao mundo para conquistar, estimulado pela competição e pela vontade de superação, depois, o movimento de dar de volta o que colhemos do mundo, encontrando o sítio em que sentimos que podemos oferecer genuinamente os nossos talentos, o nosso espírito, cooperando para construir algo maior que nós.

Cooperação e competição formam duas polaridades essenciais no ser humano. Polaridades que requerem uma dinâmica equilibrada, tal como as energias feminina e masculina, ou as duas forças universais complementares: Yin e Yang.

Poderemos relacionar a cooperação com a receptividade yin, com o princípio feminino e com a dinâmica arquetípica matriarcal, enquanto a competição estará relacionada com a acção yang, com o principio masculino e com a dinâmica arquetípica patriarcal.

A lógica matriarcal é instintiva e imprevisível, pois não segue uma regra ou uma estrutura como a patriarcal. As suas características centrais são a vivência pela sensualidade, o princípio do prazer e da fertilidade, a intensa proximidade afetivo-corporal, a maternagem e a cooperação. O seu arquétipo é o da Grande Mãe.

Já o dinamismo patriarcal relaciona-se com o ego, o pensamento racional e com o planeamento abstrato que se pode ver nas realizações religiosas, dogmáticas e legisladoras.

O grande princípio de funcionamento da lógica patriarcal já não é o desejo e a fertilidade, e sim o dever, a tarefa, a coerência, a honra, a vergonha e a culpa, a competição, bem como a ideologia em absolutos: o corpo treinado e aperfeiçoado como uma máquina para ultrapassar um recorde; o exército treinado para a guerra; o domínio ascético das emoções; a exploração e o domínio da natureza. O seu arquétipo é o do Pai.

A ligação da mulher com a função biológica da procriação e maternagem, deu lugar à forte identificação da mulher com o dinamismo matriarcal. A ligação do homem com o poder, a agressividade e a racionalidade levaram a uma identificação do homem com o dinamismo patriarcal. No entanto, seria tão errado considerar que o homem só opera a partir da dinâmica patriarcal, ou a mulher apenas da matriarcal, quanto achar que, o homem só possui energia masculina e a mulher energia feminina. Na verdade, estamos todos algures num espectro continuo multidimensional.

Segundo o psicanalista junguiano, Carlos Byington, um dos maiores feitos culturais do dinamismo matriarcal na evolução da humanidade foi provavelmente a aprendizagem do plantio e da sementeira, que equivale no dinamismo patriarcal possivelmente à invenção da escrita e ao método científico.

A ideia essencial a reter, é que um princípio não é mais importante do que o outro, ambos se complementam e equilibram.

 

Olhando agora para o mundo actual, poderemos constatar que a cultura e sociedade dominantes são fortemente patriarcais. Temos uma sociedade que enfatiza o pensamento racional e científico, a lei e a ordem, e em que o mecanismo de regulação é quase exclusivamente a competição.

As consequências de uma cultura assente em tal desequilíbrio estão à vista de todos. Temos um conhecimento científico e tecnológico avançadíssimo, que não foi acompanhado por uma inteligência dos instintos e emoções, ou por uma consciência ética, espiritual e ecológica. Neste momento somos a espécie dominante deste planeta, mas estamos longe de ser a espécie mais bem adaptada ao seu meio. Prova disto, é o facto de o planeta estar a viver a sexta extinção massiva de espécies.

Estamos todos no mesmo barco, um barco que já começou a afundar-se e no qual continuamos a abrir buracos.

Algures no caminho esquecemos uma parte essencial de ser humano. Esquecemos que nenhuma vitória é completa ou verdadeira se não vencermos todos juntos.

O nosso yang à solta sem o yin tornou-se um tirano.

 

Como seria um mundo em que razão e coração estivessem mais em equilíbrio?

Como seria um mundo em que o cidadão anónimo que salva a vida de um estranho, tivesse o mesmo reconhecimento de um Cristiano Ronaldo?

Como seria um mundo em que houvesse tantas estátuas aos nossos Ghandis, aos nossos Mandelas, às nossas Madres Teresa, como há estátuas a Generais e Reis, ou obeliscos a comemorar guerras?

Como seria um mundo com Jogos de Cooperação Olímpica?

Imagino que num mundo assim, duas crianças, uma de oito e outra de dez anos pudessem sentir alegria num jogo de ping-pong, e, talvez terminassem o jogo e celebrassem juntas por ambas ganharem alguma coisa.

 

 

Filipe Raposo

Escrito em Dezembro de 2017

Foto de Trevor Cole em Unsplash

 

Leituras sugeridas:

A importância da cooperação na evolução dos seres vivos
10 Shocking Facts About Society that We Absurdly Accept as Normal

“Cooperation is the secret behind the open endedness of the evolutionary process. Perhaps the most remarkable aspect of evolution is its ability to generate cooperation in a competitive world. Thus, we might add ‘natural cooperation’ as a third fundamental principle of evolution beside mutation and natural selection.”, (Nowak, 2006)

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3279745/

 

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Lembro-me de ter uns dez anitos quando entrei na minha primeira competição desportiva. Era um torneio de ping-pong. Estava muito nervoso, em cima de mim pairavam os vários olhares e expectativas dos adultos. Sentia medo de não estar à altura. Parecia que os meus braços estavam sem força e não tinha a alegria que costumava sentir quando jogava com os amigos. Joguei muito pior do que conseguia nos treinos, mas, com algum esforço, lá consegui vencer o adversário, um miúdo bem mais pequeno que eu (talvez de oito ou nove anos). Quando o jogo terminou, correram para mim e levantaram-me no ar em celebração. Fiz um sorriso para corresponder, mas por dentro não havia entusiasmo. Pelo canto do olho consegui ainda ver o outro miúdo a caminhar sozinho em direcção à saída. Ninguém estava lá com ele. Ninguém celebrou o seu esforço, ou honrou a sua coragem. Parecia muito triste, seriam lágrimas na sua cara?

 

Por algum motivo não registei aquela experiência como um acontecimento construtivo no meu percurso.

 

Recentemente, ao recordar este episódio, começaram a surgir-me algumas questões mais filosóficas: Será que a competição é algo assim tão importante para nós? Será que para um se elevar, o(s) outro(s) te(ê)m que ficar por baixo? Que aspecto teria uma sociedade, em que a força prevalecente não fosse apenas a competição, mas também a cooperação?

 

A competição constitui um mecanismo central em todos os aspectos da sociedade, desde o desporto, à educação, à economia, ao negócio, aos relacionamentos, à beleza e até às ideias que temos, do que é ser bem sucedido e do valor que uma pessoa tem.

Charles Darwin, reconheceu a competição e a cooperação como instintos poderosos no homem. Ele foi uma das primeiras figuras a observar, como, em termos evolutivos, a cooperação representou uma vantagem considerável relativamente à competição. A competição pode levar a maiores ganhos no curto prazo do ponto de vista do individuo, no entanto, no longo prazo, a cooperação traz maiores proveitos para o colectivo, o que se reflecte também em cada individuo.

Enquanto a competição propicia sociedades fortemente estratificadas, em que impera a lei da selva, o défice de ética, o narcisismo, a normalização da violência, do sectarismo e dos nacionalismos, a cooperação fomenta comportamentos pro-sociais que levam a sociedades mais pacíficas, tolerantes e resilientes. Pode-se dizer que a competição nos separa dos outros (indivíduos, grupos, nações) e isola com a pergunta: “Como posso ser melhor que os outros?” Enquanto a cooperação nos aproxima dos outros perguntando: “Como posso dar o meu contributo para ajudar os outros e sentir-me parte de algo maior que eu?”

A competição é um instinto forte, presente em nós, que parece partir da vontade de sobreviver, de prosperar, de sentir prazer ou reconhecimento, e emerge de um lugar que pressente uma escassez de recursos (real ou ilusória). É um mecanismo essencial na natureza, para regular os ecossistemas e ditar os equilíbrios de poder entre espécies e dentro da mesma espécie. Na nossa espécie, a competição tem um papel importante como estimulo à superação dos nossos limites e como ímpeto para atingirmos o nosso potencial individual.

A cooperação é um instinto igualmente forte que nasce da nossa natureza gregária. Somos animais sociais por necessidade. Vimos ao mundo totalmente indefesos. No entanto, cooperando em tribo, fomos capazes de nos organizar para proteger as tenras crias durante os primeiros anos de vida, pudemos construir abrigos e caçar em equipa com estratégias engenhosas. Desta convivência social surgiu a linguagem, a cultura, a ciência, as artes, etc.

 

O nosso movimento de superação e conquista individual deve ser acompanhado da maturação das competências que nos ligam aos outros e ajudam a zelar pela comunidade. A jornada arquetípica da nossa maturação fica incompleta sem estes dois movimentos. Primeiro, em direcção ao mundo para conquistar, estimulado pela competição e pela vontade de superação, depois, o movimento de dar de volta o que colhemos do mundo, encontrando o sítio em que sentimos que podemos oferecer genuinamente os nossos talentos, o nosso espírito, cooperando para construir algo maior que nós.

Cooperação e competição formam duas polaridades essenciais no ser humano. Polaridades que requerem uma dinâmica equilibrada, tal como as energias feminina e masculina, ou as duas forças universais complementares: Yin e Yang.

Poderemos relacionar a cooperação com a receptividade yin, com o princípio feminino e com a dinâmica arquetípica matriarcal, enquanto a competição estará relacionada com a acção yang, com o principio masculino e com a dinâmica arquetípica patriarcal.

A lógica matriarcal é instintiva e imprevisível, pois não segue uma regra ou uma estrutura como a patriarcal. As suas características centrais são a vivência pela sensualidade, o princípio do prazer e da fertilidade, a intensa proximidade afetivo-corporal, a maternagem e a cooperação. O seu arquétipo é o da Grande Mãe.

Já o dinamismo patriarcal relaciona-se com o ego, o pensamento racional e com o planeamento abstrato que se pode ver nas realizações religiosas, dogmáticas e legisladoras.

O grande princípio de funcionamento da lógica patriarcal já não é o desejo e a fertilidade, e sim o dever, a tarefa, a coerência, a honra, a vergonha e a culpa, a competição, bem como a ideologia em absolutos: o corpo treinado e aperfeiçoado como uma máquina para ultrapassar um recorde; o exército treinado para a guerra; o domínio ascético das emoções; a exploração e o domínio da natureza. O seu arquétipo é o do Pai.

A ligação da mulher com a função biológica da procriação e maternagem, deu lugar à forte identificação da mulher com o dinamismo matriarcal. A ligação do homem com o poder, a agressividade e a racionalidade levaram a uma identificação do homem com o dinamismo patriarcal. No entanto, seria tão errado considerar que o homem só opera a partir da dinâmica patriarcal, ou a mulher apenas da matriarcal, quanto achar que, o homem só possui energia masculina e a mulher energia feminina. Na verdade, estamos todos algures num espectro continuo multidimensional.

Segundo o psicanalista junguiano, Carlos Byington, um dos maiores feitos culturais do dinamismo matriarcal na evolução da humanidade foi provavelmente a aprendizagem do plantio e da sementeira, que equivale no dinamismo patriarcal possivelmente à invenção da escrita e ao método científico.

A ideia essencial a reter, é que um princípio não é mais importante do que o outro, ambos se complementam e equilibram.

 

Olhando agora para o mundo actual, poderemos constatar que a cultura e sociedade dominantes são fortemente patriarcais. Temos uma sociedade que enfatiza o pensamento racional e científico, a lei e a ordem, e em que o mecanismo de regulação é quase exclusivamente a competição.

As consequências de uma cultura assente em tal desequilíbrio estão à vista de todos. Temos um conhecimento científico e tecnológico avançadíssimo, que não foi acompanhado por uma inteligência dos instintos e emoções, ou por uma consciência ética, espiritual e ecológica. Neste momento somos a espécie dominante deste planeta, mas estamos longe de ser a espécie mais bem adaptada ao seu meio. Prova disto, é o facto de o planeta estar a viver a sexta extinção massiva de espécies.

Estamos todos no mesmo barco, um barco que já começou a afundar-se e no qual continuamos a abrir buracos.

Algures no caminho esquecemos uma parte essencial de ser humano. Esquecemos que nenhuma vitória é completa ou verdadeira se não vencermos todos juntos.

O nosso yang à solta sem o yin tornou-se um tirano.

 

Como seria um mundo em que razão e coração estivessem mais em equilíbrio?

Como seria um mundo em que o cidadão anónimo que salva a vida de um estranho, tivesse o mesmo reconhecimento de um Cristiano Ronaldo?

Como seria um mundo em que houvesse tantas estátuas aos nossos Ghandis, aos nossos Mandelas, às nossas Madres Teresa, como há estátuas a Generais e Reis, ou obeliscos a comemorar guerras?

Como seria um mundo com Jogos de Cooperação Olímpica?

Imagino que num mundo assim, duas crianças, uma de oito e outra de dez anos pudessem sentir alegria num jogo de ping-pong, e, talvez terminassem o jogo e celebrassem juntas por ambas ganharem alguma coisa.

 

 

Filipe Raposo

Escrito em Dezembro de 2017

Foto de Trevor Cole em Unsplash

 

Leituras sugeridas:

A importância da cooperação na evolução dos seres vivos
10 Shocking Facts About Society that We Absurdly Accept as Normal

“Cooperation is the secret behind the open endedness of the evolutionary process. Perhaps the most remarkable aspect of evolution is its ability to generate cooperation in a competitive world. Thus, we might add ‘natural cooperation’ as a third fundamental principle of evolution beside mutation and natural selection.”, (Nowak, 2006)

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3279745/

 

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