A Noite Escura da Alma

2 de Outubro, 2018

…Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,

Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia…”, excerto de “A Noite Escura da Alma”, Poema de São João da Cruz.

 

 

“A Noite Escura da Alma” é um poema do séc. XVI escrito pelo frade Carmelita João da Cruz. O texto fala dos obstáculos, angustias e duvidas no caminho de espiritualidade cristã, no trajecto da alma rumo à união com Deus. Por se considerar um tema incontornável em todo o caminho de crescimento espiritual, o termo “Noite Escura da Alma” passou a ser utilizado de forma mais alargada para referir a(s) crise(s) que assola(m) todo aquele que se propõe a um processo de autoconhecimento e transformação.

A crise, o abandono temporário da esperança, ou a travessia do deserto árido, fazem parte do processo arquetípico de crescimento e desilusão (no sentido de transcender as ilusões e miragens). Se olharmos para as jornadas arquetípicas de várias figuras marcantes da humanidade, poderemos notar que há quase sempre esta etapa demarcada.

Temos o momento de desespero do Príncipe Siddartha Gautama, após quase se afogar no rio, devido a exaustão e fraqueza causadas por longas práticas de auto mortificação, que não o aproximaram em nada da liberdade. No entanto, só após esta desilusão pôde surgir a revelação do caminho do meio.

Temos o momento em que Jesus Cristo se entrega em oração no Monte das Oliveiras, na noite antes da sua crucificação. Angustiado pelas provações que sabe em breve se abaterão sobre si, pede ao Pai que o poupe de tamanho sacrifício. No dia seguinte na cruz, ao proferir as enigmáticas palavras antes da ultima expiração: “Deus, meu Deus porque me abandonaste?”, revelando-nos novamente uma faceta profundamente humana e frágil antes da “vitória” sobre a morte.

Temos o momento em que Jó (personagem do Antigo Testamento – ver imagem de inicio do texto), após perder tudo (filhos, posses materiais, saúde), e, apesar da sua paciência e fé, amaldiçoa o dia em que nasceu. No entanto, do desespero de Jó nasce uma fé reforçada que acaba por ser recompensada.

Temos o momento da crise de fé, de Madre Teresa de Calcutá, uma escuridão que durou, segundo a mesma, quase a totalidade da sua vida. Apesar de se sentir sem rumo espiritual durante a maior parte da sua existência, foi e continua a ser para tantos um farol em tempos incertos.

 

O momento mais escuro e frio da noite é mesmo antes do alvorecer

O processo de autoconhecimento requer ir ao encontro da verdade da nossa existência. Requer mergulhar a fundo nas perguntas: Quem sou eu para lá das histórias que me conto? Quem sou eu para lá da construção que mostro ao Mundo? Como cumpro o meu propósito de vida? Onde coloco o meu coração? O que aprendi acerca do Amor, e, que Amor deixo no Mundo?

Este é um processo de ir deixando a nossa velha casa e partir em busca de uma nova. Tal, requer coragem e uma dose de fé. Fé de que mesmo quando não se avista caminho, as pedras irão surgir para amparar os nossos pés.

Ao contemplarmos o nosso momento existencial e o trajecto que nos trouxe até aqui, iremos por vezes encontrar feridas por cuidar. O sarar dessas feridas requer o movimento contra-intuitivo de ir ao encontro da experiência difícil com aceitação, seja nos momentos de ligeiro desconforto (por exemplo numa prática de meditação), seja nos momentos de crise em que não vislumbramos qualquer luz em redor, ou perspetiva de saída nas nossas vidas.

Estes momentos de crise podem ser desestruturantes, provocar o caos nas nossas vidas e incontável sofrimento, e, ainda assim, poderão estar fecundos de oportunidade. Duvidar e cair e voltar a erguer-se, é algo que nos define como seres humanos. Duvidar do caminho que escolhemos poderá frutificar numa correcção de rota, mais próxima da verdade de quem somos. Uma crise, poderá ser uma forma da vida nos “trazer” pela mão e mostrar-nos, que precisamente neste sitio onde caímos de joelhos, há ainda uma lição que precisamos aprender.  A noite escura da alma poderá ser um lembrete, de que algures num caminho virtuoso traímos o nosso sonho e tomámos o trilho já desbravado por outro, ou o atalho das práticas e rituais esvaziados de sentido e que apenas criaram uma nova identidade que não nos assenta, ou o atalho de encenarmos uma qualidade que vislumbrámos possível em nós, mas que ainda não alcançámos.

Por vezes a noite escura da alma abater-se-á de forma impiedosa e aparentemente interminável. Poderá ser resultado de uma perda devastadora, ou de uma profunda crise existencial. Este processo de travessia do deserto, confrontar-nos-á com o medo, a ansiedade e a fragilidade da existência humana. É uma provação que nos despe, e, como no caso de Jó, coloca-nos a questão: “Quem és tu sem as tuas relações mais queridas, sem as tuas posses materiais, sem as tuas certezas, sem os teus sonhos, sem esta aparência física, sem a tua saúde?”

É possível que os primeiros raios de Sol, que anunciam o fim da noite escura da alma, surjam após alguma forma de rendição, ou de abrir mão do controlo. É preciso que uma parte de nós “morra” para que outra possa daí nascer revelada numa consciência mais ampla.

 

Com o alvorecer desvendaste mais um pouco deste jogo de luz e sombras que é a vida.

 

“As provações são como a areia e o cascalho que alisam a pedra.”, G. V. Wigram

Parece-me que o sofrimento por si só, não é condição suficiente para que o coração se abra (para que a pedra perca as suas arestas e se torne macia). Se assim fosse, os milhões de seres humanos que nascem e crescem todos os dias em contextos desfavorecidos, de guerra, de fome, de abandono, sem uma estrutura familiar estável e harmoniosa e sem uma referência saudável de amor, teriam condições propicias para evoluir e amadurecer as melhores qualidades do ser humano. Não é que não seja possível, e há muitos exemplos de que a vida e o amor podem florescer nos recantos mais escuros e estéreis contra todas as probabilidades. No entanto, há um axioma de vida incontornável, tão simples que dispensa qualquer demonstração: amor gera amor, ódio gera ódio.

Infelizmente, tanto sofrimento sem condições benéficas a um processo de tomada de consciência – sem crescer em amor e compaixão – gera apenas mais sofrimento para si e para os outros em redor. Com tanta insegurança e medo, o coração fecha-se e endurece ainda mais, (a pedra tem tendência a criar ainda mais arestas pontiagudas).

Tudo isto para dizer que a noite escura da alma poderá puxar-nos o tapete debaixo dos pés, e quebrar-nos, e ainda assim poderá arder ténue no nosso coração um anseio, a tal luz que é guia no poema de João da Cruz, e, se o permitirmos, o fogo amoroso transmutará o que já não nos serve.

Até algo tão sólido e duradouro como uma montanha precisa ter a humildade de se permitir quebrar, tornar-se seixo de rio, e, mais adiante, areia que amortece o litoral longínquo. Não será essa a forma da montanha se cumprir?

É através das frestas deste quebrar, que se projecta aquilo que nunca poderá ser quebrado, aquilo que em nós desde sempre aguardou, para poder soltar o grito e estender as asas. E, se certo dia, a negra cortina tombar, e te parecer que a noite não terá um fim, acredita que o Sol te está a dar o tempo exacto que necessitas, nem mais nem menos. Toma consolo em saber que todo o Mundo aguarda expectante o alvorecer de revelação da tua nova poesia.

 

Filipe Raposo

Texto Escrito em Outubro de 2018

Imagem: Jó – Pintura de LéonBonnat (1880)

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…Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,

Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia…”, excerto de “A Noite Escura da Alma”, Poema de São João da Cruz.

 

 

“A Noite Escura da Alma” é um poema do séc. XVI escrito pelo frade Carmelita João da Cruz. O texto fala dos obstáculos, angustias e duvidas no caminho de espiritualidade cristã, no trajecto da alma rumo à união com Deus. Por se considerar um tema incontornável em todo o caminho de crescimento espiritual, o termo “Noite Escura da Alma” passou a ser utilizado de forma mais alargada para referir a(s) crise(s) que assola(m) todo aquele que se propõe a um processo de autoconhecimento e transformação.

A crise, o abandono temporário da esperança, ou a travessia do deserto árido, fazem parte do processo arquetípico de crescimento e desilusão (no sentido de transcender as ilusões e miragens). Se olharmos para as jornadas arquetípicas de várias figuras marcantes da humanidade, poderemos notar que há quase sempre esta etapa demarcada.

Temos o momento de desespero do Príncipe Siddartha Gautama, após quase se afogar no rio, devido a exaustão e fraqueza causadas por longas práticas de auto mortificação, que não o aproximaram em nada da liberdade. No entanto, só após esta desilusão pôde surgir a revelação do caminho do meio.

Temos o momento em que Jesus Cristo se entrega em oração no Monte das Oliveiras, na noite antes da sua crucificação. Angustiado pelas provações que sabe em breve se abaterão sobre si, pede ao Pai que o poupe de tamanho sacrifício. No dia seguinte na cruz, ao proferir as enigmáticas palavras antes da ultima expiração: “Deus, meu Deus porque me abandonaste?”, revelando-nos novamente uma faceta profundamente humana e frágil antes da “vitória” sobre a morte.

Temos o momento em que Jó (personagem do Antigo Testamento – ver imagem de inicio do texto), após perder tudo (filhos, posses materiais, saúde), e, apesar da sua paciência e fé, amaldiçoa o dia em que nasceu. No entanto, do desespero de Jó nasce uma fé reforçada que acaba por ser recompensada.

Temos o momento da crise de fé, de Madre Teresa de Calcutá, uma escuridão que durou, segundo a mesma, quase a totalidade da sua vida. Apesar de se sentir sem rumo espiritual durante a maior parte da sua existência, foi e continua a ser para tantos um farol em tempos incertos.

 

O momento mais escuro e frio da noite é mesmo antes do alvorecer

O processo de autoconhecimento requer ir ao encontro da verdade da nossa existência. Requer mergulhar a fundo nas perguntas: Quem sou eu para lá das histórias que me conto? Quem sou eu para lá da construção que mostro ao Mundo? Como cumpro o meu propósito de vida? Onde coloco o meu coração? O que aprendi acerca do Amor, e, que Amor deixo no Mundo?

Este é um processo de ir deixando a nossa velha casa e partir em busca de uma nova. Tal, requer coragem e uma dose de fé. Fé de que mesmo quando não se avista caminho, as pedras irão surgir para amparar os nossos pés.

Ao contemplarmos o nosso momento existencial e o trajecto que nos trouxe até aqui, iremos por vezes encontrar feridas por cuidar. O sarar dessas feridas requer o movimento contra-intuitivo de ir ao encontro da experiência difícil com aceitação, seja nos momentos de ligeiro desconforto (por exemplo numa prática de meditação), seja nos momentos de crise em que não vislumbramos qualquer luz em redor, ou perspetiva de saída nas nossas vidas.

Estes momentos de crise podem ser desestruturantes, provocar o caos nas nossas vidas e incontável sofrimento, e, ainda assim, poderão estar fecundos de oportunidade. Duvidar e cair e voltar a erguer-se, é algo que nos define como seres humanos. Duvidar do caminho que escolhemos poderá frutificar numa correcção de rota, mais próxima da verdade de quem somos. Uma crise, poderá ser uma forma da vida nos “trazer” pela mão e mostrar-nos, que precisamente neste sitio onde caímos de joelhos, há ainda uma lição que precisamos aprender.  A noite escura da alma poderá ser um lembrete, de que algures num caminho virtuoso traímos o nosso sonho e tomámos o trilho já desbravado por outro, ou o atalho das práticas e rituais esvaziados de sentido e que apenas criaram uma nova identidade que não nos assenta, ou o atalho de encenarmos uma qualidade que vislumbrámos possível em nós, mas que ainda não alcançámos.

Por vezes a noite escura da alma abater-se-á de forma impiedosa e aparentemente interminável. Poderá ser resultado de uma perda devastadora, ou de uma profunda crise existencial. Este processo de travessia do deserto, confrontar-nos-á com o medo, a ansiedade e a fragilidade da existência humana. É uma provação que nos despe, e, como no caso de Jó, coloca-nos a questão: “Quem és tu sem as tuas relações mais queridas, sem as tuas posses materiais, sem as tuas certezas, sem os teus sonhos, sem esta aparência física, sem a tua saúde?”

É possível que os primeiros raios de Sol, que anunciam o fim da noite escura da alma, surjam após alguma forma de rendição, ou de abrir mão do controlo. É preciso que uma parte de nós “morra” para que outra possa daí nascer revelada numa consciência mais ampla.

 

Com o alvorecer desvendaste mais um pouco deste jogo de luz e sombras que é a vida.

 

“As provações são como a areia e o cascalho que alisam a pedra.”, G. V. Wigram

Parece-me que o sofrimento por si só, não é condição suficiente para que o coração se abra (para que a pedra perca as suas arestas e se torne macia). Se assim fosse, os milhões de seres humanos que nascem e crescem todos os dias em contextos desfavorecidos, de guerra, de fome, de abandono, sem uma estrutura familiar estável e harmoniosa e sem uma referência saudável de amor, teriam condições propicias para evoluir e amadurecer as melhores qualidades do ser humano. Não é que não seja possível, e há muitos exemplos de que a vida e o amor podem florescer nos recantos mais escuros e estéreis contra todas as probabilidades. No entanto, há um axioma de vida incontornável, tão simples que dispensa qualquer demonstração: amor gera amor, ódio gera ódio.

Infelizmente, tanto sofrimento sem condições benéficas a um processo de tomada de consciência – sem crescer em amor e compaixão – gera apenas mais sofrimento para si e para os outros em redor. Com tanta insegurança e medo, o coração fecha-se e endurece ainda mais, (a pedra tem tendência a criar ainda mais arestas pontiagudas).

Tudo isto para dizer que a noite escura da alma poderá puxar-nos o tapete debaixo dos pés, e quebrar-nos, e ainda assim poderá arder ténue no nosso coração um anseio, a tal luz que é guia no poema de João da Cruz, e, se o permitirmos, o fogo amoroso transmutará o que já não nos serve.

Até algo tão sólido e duradouro como uma montanha precisa ter a humildade de se permitir quebrar, tornar-se seixo de rio, e, mais adiante, areia que amortece o litoral longínquo. Não será essa a forma da montanha se cumprir?

É através das frestas deste quebrar, que se projecta aquilo que nunca poderá ser quebrado, aquilo que em nós desde sempre aguardou, para poder soltar o grito e estender as asas. E, se certo dia, a negra cortina tombar, e te parecer que a noite não terá um fim, acredita que o Sol te está a dar o tempo exacto que necessitas, nem mais nem menos. Toma consolo em saber que todo o Mundo aguarda expectante o alvorecer de revelação da tua nova poesia.

 

Filipe Raposo

Texto Escrito em Outubro de 2018

Imagem: Jó – Pintura de LéonBonnat (1880)

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