Meditação, Mindfullness e Autocompaixão

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O que é mindfulness ?

O que é mindfulness ?

 

Nas últimas décadas, “Mindfulness” tem vindo a (re)conquistar um espaço que é seu por direito na nossa cultura. Mindfulness chegou às escolas, universidades, hospitais e empresas. Ouvimos falar de mindfulness para a redução de stress, mindfulness para evitar recaída na depressão, mindfulness na alimentação, mindfulness na educação parental, autocompaixão baseada em mindfulness, e muitas outras intervenções suportadas pela validação cientifica, que visam trazer mais saúde e bem-estar à vida das pessoas. Pelo meio, por vezes surgem-nos também algumas propostas mais mercantilizadas e simplistas – aquilo a que se convencionou chamar de “McMindfulness”.
Por vezes mindfulness é-nos apresentado como um simples treino mental, algo que requer apenas vivermos no aqui e agora. Como veremos de seguida, treinar mindfulness é simples e não é fácil. Há diversos aspetos a serem cuidados, dos mais óbvios aos mais subtis. Treinar mindfulness é muito mais do que só um treino de atenção. Na verdade é aprender uma outra forma de nos relacionarmos connosco e com o mundo. Não exagero nas palavras quando digo que acredito que este potencial humano da atenção plena é a porta para a nossa liberdade.

 

Definição de Mindfulness

Comecemos pelo principio.

Mindfulness pode ser traduzido para português como atenção plena ou consciência plena.

Comecemos com algumas definições de mindfulness de autores influentes na área:

“Mindfulness é a consciência que resulta de dedicarmos a nossa atenção intencionalmente no momento presente, sem julgamento.”, Jon Kabat-Zinn

“Mindfulness é a consciência espaçosa, sem julgamento e gentil do presente.”, Jack Kornfield

“Mindfulness é a prática de estar totalmente presente e vivo, corpo e mente unidos. Eu bebo água e eu sei que estou a beber água. Beber água é o que está a acontecer.”, Thich Nhat Hanh

“Consciência da experiência do momento presente com aceitação.” , Chris Germer

Acrescentaria ainda outra possível definição: Mindfulness é um estado de presença consciente, sensível e compassiva, aqui e agora, que envolve uma relação direta e experiencial com a vida momento a momento.

 

Elementos essenciais presentes em mindfulness

“Descascando” um pouquinho mais estes conceitos, percebemos como mindfulness se relaciona diretamente com a natureza da nossa consciência. Como tal, mindfulness é uma característica de todos os seres humanos e não depende da ligação a uma religião ou crença, podendo ser cultivada por qualquer pessoa independentemente do seu contexto cultural ou religioso. Ao cultivarmos mindfulness acedemos a esta dimensão de consciência, ou por outras palavras, permitimos que ela se amplie e intensifique, e “guiamo-la” no sentido de notar e conhecer a nossa experiência (aquilo a que chamamos estar vivos).

Em segundo lugar, envolve uma tomada de atenção. Isto significa que ao cultivarmos mindfulness, estamos a treinar a nossa atenção de forma deliberada, pois é um processo de escolha no qual exercemos a nossa liberdade. Quando praticamos mindfulness, escolhemos conscientemente onde colocamos a nossa atenção. Escolhemos dedicar a nossa atenção a determinado aspeto da nossa experiência em particular (por exemplo as sensações da respiração, ou os sons) e notamos o que está a acontecer de forma objetiva. Este é o nosso objeto de meditação.

Pode parecer simplista. De facto, à primeira vista a proposta é simples: prestar atenção, notar. Mas a verdade é que a dificuldade não está em colocar a atenção onde queremos, a dificuldade está em manter uma continuidade de atenção no nosso objeto de meditação sem nos distrairmos. A nossa mente tem um hábito muito forte de se distrair e andar atrás de novos estímulos, ou absorver-se em pensamentos e preocupações. Manter uma continuidade de atenção é simples e não é fácil.

 

“Manter uma continuidade de atenção é simples e não é fácil.”

 

Mindfulness é portanto uma qualidade de atenção, mas que é cultivada de forma muito particular. É uma atenção que escolhemos dedicar intencionalmente. Ou seja, há uma intenção ou motivação a informar esta tomada de consciência. E é aqui que entra novamente esta faculdade dos seres-humanos da escolha.

E que intenção é esta? É uma intenção de estarmos sintonizados com o momento presente, com aquilo que está a ocorrer aqui e agora, tal como percecionado no nosso espaço de consciência. O momento presente é o único momento em que verdadeiramente podemos ser livres e habitar por inteiro a totalidade da nossa experiência.

Quando nos distraímos, o que acontece é que mergulhamos “dentro” da história dos conteúdos mentais, em particular dos pensamentos. Sem nos apercebermos, a nossa atenção absorveu-se no conteúdo de um pensamento, e ficámos identificados com o enredo, como se estivéssemos dentro de um sonho acordado. Por norma, os pensamentos levam-nos ora para o passado, refletindo acerca de memórias do que já foi,  semeando por vezes a nostalgia ou o pesar, ora para o futuro, para fantasias ou preocupações com o que poderá vir a ser, criando agitação e ansiedade. Os pensamentos fazem parte da nossa experiência, mas são apenas uma parte, são representações da realidade, mas não a realidade em si mesma.

 

“O momento presente é o único momento em que verdadeiramente podemos ser livres e habitar por inteiro a totalidade da nossa experiência.”

 

A qualidade de consciência designada de mindfulness tem portanto esta sintonia com o momento presente, mas o que podemos dizer acerca da sua intencionalidade não termina aí. A intenção estabelecida com mindfulness é informada por um conjunto de qualidades a que Jon Kabat-Zinn (criador do programa MBSR – Mindfulness-based stress reduction) designou de as 9 atitudes fundamentais da atenção plena. A saber: a mente de principiante; o não-julgamento; a aceitação; o desapego ou despojamento; a confiança; a paciência; o não-esforço ou não-luta; a gratidão; a generosidade. Em conjunto, estas atitudes ajudam a estabelecermos uma qualidade de relação afetiva aberta, recetiva e sensível em relação à nossa experiência e a nós mesmos que propicia o desenvolvimento de sabedoria e compaixão.

No entanto, nenhuma definição de Mindfulness define a sua verdadeira natureza, pois mindfulness é consciência antes dos conceitos. É uma experiência vivencial direta, que pode ser descrita através de palavras e conceitos, mas que na verdade só ganha vida quando praticada.

Saiba de que forma se pode cultivar mindfulness.

 

Filipe Raposo

Outubro 2022

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