Meditação, Mindfullness e Autocompaixão

CompassivaMente

Não-Luta ou Não-Esforço

 

Todos nós temos o hábito de fazer coisas com um objetivo. Há quase sempre em vista a obtenção de algum tipo de resultado, sempre a expetativa de que algo vai acontecer, desde as mais pequenas ações até às ações mais prolongadas no tempo. Corremos para ficar em forma; comemos para aliviar a fome; saímos de casa para arejar e ficar bem dispostos; escovamos os dentes para que fiquem limpos; vemos televisão para nos distrairmos do aborrecimento ou vazio; estudamos para conseguir um bom emprego; poupamos para fazer uma compra; etc.

É algo que está muito presente na nossa educação e na nossa cultura.

Ao chegarmos à meditação trazendo este hábito do “modo fazer”, é natural que continuemos a tentar controlar, mudar, manipular, retirar ou acrescentar algo da nossa experiência do momento presente. Eis alguns exemplos do que pode ocorrer na meditação: Se notamos que há desconforto físico, há a tendência para mexer o corpo para retirar a dor. Se notamos que estamos irritados começamos a alimentar pensamentos de critica e julgamento e desejamos sentir-nos de outra forma. Se notamos que nos distraímos constantemente, começamos a tentar usar esforço mental para controlar os conteúdos da nossa mente. Se notamos que estamos em paz e focados, começamos a tentar fazer com que este estado perdure.

 

Ao chegarmos à meditação trazendo este hábito do “modo fazer”, é natural que continuemos a tentar controlar, mudar, manipular, retirar ou acrescentar algo da nossa experiência do momento presente.


Esta luta ou tentativa de controlo, acaba por se tornar um dos maiores obstáculos na prática meditativa.

Cultivar atenção plena requer um novo paradigma, requer aprendermos a ser ou estar. A nossa cultura ajuda-nos a desenvolver bastante o saber fazer e o saber saber, no entanto pouco nos prepara para o saber ser.

Este “ser” na meditação, aponta para um domínio de experiência contemplativa que se pode considerar uma forma de agir sem tentar agir. Este conceito relaciona-se com o principio Taoista do “Wu wei”, por vezes traduzido como “não-ação”. Significa liberdade do fazer reflexivo ou condicionado: agindo quando é tempo de agir, não agindo quando não é tempo de agir. A ação está portanto alinhada com o fluxo natural da vida, ao serviço daquilo que quer surgir. O fazer surgirá certamente no momento apropriado, mas partirá de um lugar do ser. A isto se chama discernimento e sabedoria.


A nossa cultura ajuda-nos a desenvolver bastante o saber fazer e o saber saber, no entanto pouco nos prepara para o saber ser.


Este “modo ser” convida-nos a encontrar o lugar de observação, testemunhando e permitindo o fluxo de experiência à medida que evolui momento a momento.

É importante para tal, notar se estamos a meditar com uma expetativa de chegar a algum lugar diferente, ou sentir algo diferente, ou obter algum resultado. Se notarmos que há expetativa, podemos então abrir mão dela, deixa-la ir.

Enquanto estivermos a tentar controlar a nossa experiência, estamos de certa forma a opor-nos ao fluxo da vida, estamos a rejeitar o momento presente. O resultado da diferença entre o que é e o que gostaríamos que fosse, traduz-se em sofrimento.

Deixar as coisas serem tal como são, sem nada fazer, paradoxalmente permite-nos descobrir o contentamento e a liberdade de estar em paz com a existência no momento presente. Esta não-luta dá-nos a liberdade de não depender de determinadas circunstâncias que não estão aqui presentes. É a liberdade de não ter que querer algo diferente. Descobrimos que o momento presente chega e é suficiente. Mais do que suficiente, é abundante.


Enquanto estivermos a tentar controlar a nossa experiência, estamos de certa forma a opor-nos ao fluxo da vida, estamos a rejeitar o momento presente.


Se pararmos para refletir, talvez descubramos que gastamos imenso tempo e energia, a tentar ter momentos de contentamento através de experiências controladas, por vezes complexas, caras ou sofisticadas, mas que não perduram nem preenchem.

A meditação pode ser um caminho para contactar um contentamento nutridor e tê-lo como referência na nossa vida.

Termino este texto com um excerto do Verso 16 do Tao Te Ching, que nos aponta para a importância da atitude de Não-Luta.

Excerto do Verso 16 do Tao Te Ching

Todas as coisas regressam à sua raiz.

Regressando à raiz há quietude.

Na quietude, o verdadeiro propósito retorna.

Isto é o que é real.

Conhecendo o real, há clareza.

Não conhecendo o real, a ação tola traz o desastre.

Do conhecimento do real vem a qualidade de espaço,

Do espaço vem a imparcialidade,

Da imparcialidade vem a soberania,

Da soberania vem o que é natural.

O que surge naturalmente é o Tao.

Do Tao vem o que é duradouro,

Persistindo para além do seu Eu.

 

 

Texto escrito em Dezembro 2023

Filipe Raposo

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