Meditação, Mindfullness e Autocompaixão

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Confiança

 

A confiança é uma atitude importante no treino de mindfulness. É uma atitude que surge tanto como motivação que trazemos intencionalmente ao caminho meditativo, como é também uma consequência do próprio caminho.

Quando meditamos, surge naturalmente o convite a confiarmos nos processos naturais, a começar pelo nosso corpo. A observação da nossa dimensão sensorial, ajuda-nos a cultivar a confiança na sabedoria natural do corpo. Observando, reforçamos a consciência de que não controlamos a maior parte do funcionamento do corpo e dos seus processos vitais, e ainda assim é possível encontrar paz nesse reconhecimento.
Por outro lado, estar consciente e confiar nos sinais do corpo ajuda-nos a cuidarmos melhor de nós. Só podemos cuidar daquilo que tomamos consciência.
O território de experiência que é o corpo fala-nos na linguagem das sensações no momento presente, o que nos assinala de forma fidedigna a nossa realidade.


Só podemos cuidar daquilo que tomamos consciência.

 

Por seu turno, a observação da mente pensante, ou mente discursiva, mostra-nos que não podemos confiar inteiramente nos pensamentos. Já diz o ditado: “A mente mente”. As histórias, narrativas e significados que habitualmente nos “visitam”, são altamente voláteis, tendenciosos e imprecisos.

Já a dimensão emocional da nossa experiencia, é um pouco mais merecedora de confiança do que os pensamentos. Na maioria dos casos, as emoções trazem consigo mensagens importantes no que toca às nossas necessidades e mobilizam-nos para uma ação, ou para uma abertura ou fecho em relação ao mundo. Também é verdade que estas emoções, podem estar reféns de processos traumáticos, e deixar de estar sintonizadas com a verdade do momento presente, ou por vezes podem falar-nos mais de quereres egoicos do que propriamente de necessidades essenciais. Ainda assim, ao observarmos estas emoções podemos chegar ao cerne das nossas feridas emocionais e dinâmicas que nos aprisionam.


“A mente mente”. As histórias, narrativas e significados que habitualmente nos “visitam”, são altamente voláteis, tendenciosos e imprecisos.

 

Desenvolver confiança e estar conectado com a intuição traz um sentido de autoridade e agência, ao invés de procurarmos sempre fora de nós alguma orientação. Tornamo-nos também responsáveis por quem somos e pelo nosso impacto no mundo.
Quando confiamos na nossa natureza e nos sinais que esta nos vai dando (corpo, mente, coração) podemos ter isso como uma bússola, ainda que outras pessoas ou autoridades digam algo contrário.
Cultivar confiança suporta um sentido de investigação, exploração, o que nos conecta com a mente de principiante. Podemos testar as hipóteses por nós mesmos e verificar na nossa experiência se o sentimos como verdadeiro, ao invés de acreditarmos cegamente num dogma ou numa figura de referência (professor, líder, mestre, guru). A contemplação ajuda-nos portanto a aprender a sermos o nosso melhor professor.
A meditação mindfulness aponta-nos para a nossa própria descoberta pessoal. Os ensinamentos, os livros, as palestras, os professores, são importantes sinais orientadores, são setas que nos sugerem possibilidades. Devemos estar recetivos ao que nos podem ensinar, mas em ultima análise somos nós que temos que viver a nossa vida, somos nós que colhemos a consequência de até que ponto nos estamos a sintonizar com algo verdadeiro ou não. Somos os principais agentes da nossa “libertação” ou “prisão”.


Quando confiamos na nossa natureza e nos sinais que esta nos vai dando (corpo, mente, coração) podemos ter isso como uma bússola, ainda que outras pessoas ou autoridades digam algo contrário.

 

Não controlamos a grande maioria das circunstâncias da nossa vida, nem as externas nem tão pouco as internas. Isto pode ser um choque para algumas pessoas, pois com frequência temos uma ilusão de controlo. Confiar é largar um pouco o controlo, rendermo-nos a uma certa sabedoria que tudo rege.
O caminho da libertação começa com a confiança na nossa sabedoria, bondade e desejo de felicidade naturais. A mente e o corpo desejam estar bem e ser felizes, tal como o coração deseja estar bem e ser feliz, tal como todos os outros seres.
Esta confiança que desenvolvemos, expande para a relação connosco, com os outros e com a natureza. Pode dizer-se que completamos o ciclo, devolvendo a nossa mente e corpo ao lugar do qual sempre fizeram parte – a natureza.

Podemos confiar na prática, na sabedoria e paz potenciais se nos entregarmos. Há uma sabedoria inerente à existência. O mistério tem mais perguntas do que respostas, mas o treino meditativo pode ajudar-nos a ir largando as perguntas e a estar em paz com o que ainda não sabemos.


Confiar é largar um pouco o controlo, rendermo-nos a uma certa sabedoria que tudo rege.

 

O desenvolvimento da prática de mindfulness, pode ajudar a tornarmo-nos confiantes e dignos de confiança.

Confiantes por começarmos a compreender a sabedoria inerente à natureza da realidade – o entendimento profundo da causalidade da felicidade e sofrimento; a realização da natureza impermanente e de carater processual; a profunda natureza de interdependência de todos os fenómenos.

Dignos de confiança, uma vez que o discernimento e sabedoria referidos nas linhas anteriores transbordam naturalmente no desenvolvimento de uma ética de cuidado pela vida. A regra de ouro: “Não faças aos outros o que não gostas que te façam”, começa a desenvolver-se de forma espontânea. Ou se preferirmos de forma mais apurada: Ao infligires mal aos outros estás a infligir mal a ti mesmo.

Sermos dignos de confiança, é uma dádiva que trazemos para o mundo. Podemos ser um lugar de segurança para os outros.

 

O desenvolvimento da prática, pode ajudar a tornarmo-nos confiantes e dignos de confiança.

 

Termino este texto com um excerto de um livro de Rainer Maria Rilke, que nos fala da confiança no que ainda não sabemos.

 

“Tenha paciência com o não-resolvido, ame as perguntas e viva tudo” – Rainer Maria Rilke, “Cartas a um Jovem Poeta”, Carta Quatro

“… Você é tão jovem ainda, está diante de todos os inícios, e por isso gostaria de lhe pedir, caro Senhor, que tenha paciência quanto a tudo o que está ainda por resolver no seu coração e que tente amar as próprias perguntas como se fossem salas fechadas ou livros escritos numa língua muito diferente das que conhecemos. Não procure agora respostas que não lhe podem ser dadas porque ainda não as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta. Talvez traga em si a possibilidade de criar e de dar forma e talvez venha a senti-la como uma forma de vida particularmente pura e bem-aventurada; é esse o rumo que deverá tomar a sua educação; mas aceite o que está por vir com grande confiança, e se ele surgir apenas da sua vontade, de uma qualquer necessidade interior, deixe-o entrar dentro de si e não odeie nada.”

 

Filipe Raposo

Fevereiro de 2024

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